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Citação bibliográfica
Argel-de-Oliveira, M. M., 1998. Ornitologia para leigos: “trabalhinhos”? Ou “um trabalhão”? Bolm CEO, (13): 33-38.
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Ornitologia para leigos: "Trabalhinhos"? Ou "um trabalhão"? Maria Martha Argel-de-Oliveira É comum, em conversas
entre ornitólogos, ouvir a pergunta “Você tem publicado?”, e quase tão
comum ouvir a resposta “Tenho feito alguns trabalhinhos de divulgação,
mas...” Esse diálogo é curto porém suficiente para revelar uma
série de conceitos que parecem bastante difundidos na comunidade
brasileira ligada ao estudo das aves. O que nos indica a segunda frase do diálogo? As interpretações são
variadas; o interpelado pode entender que trabalhos de divulgação são
(1) curtos, (2) dão pouco trabalho, (3) divulgam dados preliminares, (4)
são menos importantes que trabalhos científicos ou (5) servem para ir
engordando o currículo enquanto o pesquisador não tem ainda dados
consistentes para publicar. Tenho certeza que os leitores concordarão que
um ou mais dentre estes conceitos passam por sua cabeça quando pensam
sobre “trabalhos de divulgação”. Costumam passar pela minha. Ou
costumavam. Não passam sequer perto quando leio os artigos de Stephen J.
Gould,
por exemplo. Ou seu livro, Wonderful life (Vida
maravilhosa, na edição em português). Acho que ninguém vai querer
contestar o fato de que Gould faz divulgação científica: nesse livro,
por exemplo, ele apresenta os dados de outras pessoas, não inclui dados
inéditos, nem dele nem de ninguém, e ainda por cima apresenta de forma
teatral não só os processos de descobertas e de deduções mas também a
própria vida e a personalidade dos cientistas envolvidos, como se estes
fossem personagens de um romance! Para mim, Wonderful life representa tudo o que um trabalho de divulgação
deve conter, independente do número de páginas que ocupa: apresenta
informações e dados de fato maravilhosos (o título, que à primeira
vista parece o de algum livro de autoajuda, é perfeito), é fruto de um
trabalho exaustivo (alguém tem alguma dúvida quanto a isso?) feito por
alguém que, além de cientista, é um pensador (não creio que aquele
seja sempre necessariamente este) e apresentado de uma forma apaixonante. Vou
mudar a forma de abordagem, antes que me atirem as primeiras pedras,
argumentando que é fácil elogiar um autor famoso. Gostaria de comentar
acerca das cinco implicações que arrolei acima. Não vou seguir a ordem
de exposição e começo pelo item 5 dizendo que existe uma forte seleção
natural em direção a currículos recheados, mesmo que de vento ao invés
de massa. Por forças que nada têm a ver com a da gravidade, currículos
gordos muitas vezes têm mais peso que currículos consistentes em avaliações
do “conjunto da obra” de pesquisadores, sejam essas avaliações
formais ou informais. São exatamente os critérios dessas avaliações que, extrapolados
de seu contexto específico para servirem como parâmetros mais amplos
(que têm a ver com pressão de grupo, aceitação social, ordem de
bicada, definição de lideranças, etc.), resultam diretamente no tópico
4. Escrever divulgação científica passa a ser uma atividade menor
quando comparada com a redação de trabalhos científicos. No fundo dessa
situação vislumbra-se um corporativismo que poucas vezes é admitido: é
melhor escrever para o restrito círculo de iniciados do que para uma
massa amorfa que varia entre o ignorante total e o “leigo
esclarecido”. Os efeitos gerados também acabam por tornar a escrita
científica mais atraente que a divulgação: um bom artigo científico
pode gerar efeitos bem perceptíveis, como o “reconhecimento pelos
pares” e a “ascensão” na pequena sociedade fechada dos “sábios”.
O retorno de um bom trabalho de divulgação é muito mais difícil de ser
detectado; as idéias podem ter gerado um eco em um rapazinho de algum
distante interior deste enorme Brasil e provavelmente o autor jamais vai
ficar sabendo. O desejo de engordar currículo e a sensação inconsciente de
superioridade levam, então, ao nosso ponto de número 3, que pode ser
traduzido mais ou menos assim: “já que eles (o público leigo) não
sabem nada mesmo e eu preciso publicar algo, qualquer coisa serve, vou
publicar os dados do jeito que estão. Afinal, é só um trabalhinho de
divulgação...” Lendo
volumes de revistas brasileiras de divulgação que publicam artigos de
cientistas (são poucas, pois a maioria publica apenas matérias de
jornalistas) encontrei alguns trabalhos que, sinceramente, são quase a
mesma coisa que nada; por um lado são até piores que nada, pois sua
publicação gastou energia e celulose (tendo, portanto, um impacto sobre
o ambiente) que não teriam sido desperdiçados caso não se tivesse
publicado nada. Para mim, um dos muitos pecados de certos artigos, e até de alguns
dos raros livros brasileiros de divulgação de ornitologia e de observação
de aves, é a falta de originalidade, de criatividade. Tenho visto obras
que nada mais são que a reapresentação de informações e de conceitos
mais do que batidos em obras de divulgação anteriores. Podem até estar
colocando ao alcance do público mais novo obras que já não estão mais
disponíveis no mercado, mas estão simplesmente repetindo o que já foi
dito, em essência da mesma forma e sem uma reavaliação de dados e idéias.
Para isso, não é necessário o dispendioso (em termos de dinheiro e de
tempo) treinamento de um cientista. Jornalistas, escritores e romancistas
podem fazê-lo, e com resultados muito melhores. A especificidade do
cientista, com relação a esses profissionais, reside na capacidade de
criar algo novo dentro do rigoroso universo da ciência, gerar
conhecimento científico inédito, interpretar de outra forma um conceito
científico já conhecido. Se alguém acha que essas coisas não são
importantes em um artigo de divulgação científica e que só a forma
importa, então essa pessoa deve também aceitar que a divulgação deve
ser da responsabilidade dos profissionais da comunicação, estando além
(ou aquém?) da responsabilidade do cientista. Pode-se argumentar que qualquer contribuição é melhor que
nenhuma, mas não consigo compartilhar dessa opinião. A política do
“caiu na rede é peixe” acaba levando a um padrão de qualidade muito
frouxo, que termina por penalizar aqueles que produzem um trabalho de
melhor qualidade: o que é bom é publicado, mas o que não é tão bom
também é publicado. Coisas “não tão boas” são produzidas com
maior rapidez e portanto, em maior quantidade, e
conseqüentemente geram currículos mais gordos. Isto significa que a
filosofia do “melhor que nada” exerce uma seleção contra aqueles que
perdem seu tempo burilando idéias nos bons trabalhos de divulgação. O que nos leva ao ponto número 2: a elaboração de um bom artigo
de divulgação dá muito trabalho. Não estou me referindo apenas à redação
do trabalho em si, embora esta também seja trabalhosa. Como nos trabalhos
científicos, as idéias do autor devem ser expostas com muita clareza,
usando palavras de uso diário e de forma sucinta. Infelizmente, porém,
nos textos de divulgação essas regrinhas não funcionam exatamente como
nos trabalhos científicos, onde a clareza é obtida através do jargão,
as palavras de uso diário são bem outras e a rapidez do texto se obtém
citando bibliografia. Quando se escreve para iniciados que conhecem o jargão,
não há palavras a medir, você diz o que tem a dizer e o leitor entende
exatamente o que você pretendia. Qualquer ornitólogo com uma formação
básica em ecologia sabe o que querem dizer os termos “diversidade”,
“riqueza” e “abundância” em suas acepções técnicas. Mas o uso
de qualquer um destes termos em um artigo de divulgação é extremamente
arriscado, já que eles são utilizados na linguagem do dia-a-dia com
significados bastante diferentes. O desafio da redação do trabalho de
divulgação é, portanto, expressar conceitos e idéias de uma forma que
não deixe dúvidas, mas usando palavras comuns e sem recorrer a termos técnicos.
O que dá mais trabalho e o que toma mais tempo na redação de um
artigo de divulgação é o que vem antes da redação. Para escrever um artigo de divulgação não
bastam dados preliminares. O autor deve ser um especialista no assunto e
deve conhecê-lo profundamente. Enganam-se os que acham que o artigo de
divulgação precede o artigo científico. É uma questão de lógica:
como pretender explicar idéias (e ainda mais para leigos) se elas não
estão organizadas nem mesmo para o próprio autor? É claro que o artigo
de divulgação deve vir depois que todas as idéias do autor já foram
colocadas em ordem. Além de clareza nas idéias e no linguajar, uma outra coisa não
pode faltar num artigo de divulgação: ele deve prender a atenção do
leitor. A leitura deve ser mais do que agradável. Ela deve ser
apaixonante. O que nos conduz, finalmente, ao ponto número 1. O artigo de
divulgação pode ser curto. Pode ser longo. Pode ser um livro de divulgação.
Depende da capacidade do autor de manter o fascínio e o interesse do
leitor. Conheço trabalhos de uma página que são muito
chatos, mas o livro de Stephen J. Gould a respeito de uma fauna fóssil
(quer bichos mais parados do que fósseis com 530 milhões de anos de
idade?) tem quase 350 páginas e não é nada chato. Não é a extensão
em si que conta. Em literatura, considera-se que a arte de escrever contos
é muito mais difícil de ser dominada que a arte de escrever romances,
pois você deve apresentar todo o clima da estória, os personagens e o
enredo com muito menos palavras. Certos trabalhos de divulgação curtos
(bons) talvez exijam mais do que outros mais longos, pois exigirão muito
mais perícia em apresentar idéias complexas com palavras simples e em
poucas linhas. Brevidade e simplicidade nem sempre serão sinônimo de
falta de profundidade. Um exemplo de um trabalho de divulgação completamente diferente
do livro de Gould na forma, mas reunindo as características que considero
essenciais para o gênero é o artigo de Figueiras, Vasconcellos-Neto,
Garcia & Souza (1993) sobre a relação entre um lagarto e o cactus de
cujos frutos se alimenta. Este trabalho é simples, elegante e atraente, e
recheia duas páginas com muitas informações e conceitos, expostos com
linguagem clara e concisa. O artigo tem por base um trabalho publicado em
um periódico científico (Figueiras et al., 1994). Agora, alguém poderá
comparar as datas de publicação e dizer: “epa, mas o trabalho científico
veio depois do de divulgação!”. Bom, para encurtar a história,
consultando o segundo artigo vê-se que foi enviado para o periódico
científico em 1992. A redação de ambos os trabalhos deve ter sido, no mínimo,
concomitante, mas imagino que os procedimentos editoriais mais complexos
do periódico científico tenham feito com que o artigo de divulgação
viesse à luz antes do outro (o menor rigor na aceitação de artigos só
aumenta o peso da responsabilidade que recai sobre o autor que escreve
para revistas de divulgação). Divulgar ciência não é um
trabalhinho. É um trabalhão. Mas não
é por isso que os ornitólogos jovens devem deixar essa atividade de
lado. Fatos novos e apaixonantes devem ser divulgados fora da comunidade
científica por “n” motivos, que dariam várias notas além desta.
Destaco apenas o que acho mais urgente: o “aliciamento” de novos
pesquisadores que atuem, com competência e rigor científico, no
reconhecimento e na proteção do patrimônio genético e ecológico que
ainda pode salvo. Resumindo, não é pequena a importância dos “trabalhinhos” de
divulgação, desde que “bem-feitinhos”.
AGRADECIMENTOS Agradeço a leitura crítica de Luiz Fernando de Andrade Figueiredo
e de José Fernando Pacheco. BIBLIOGRAFIA
CITADA Figueira,
J.E.C., Vasconcellos-Neto, J., Garcia, M.A. & Souza, A.L.T. de, 1993.
O cactus e o lagarto. Ciência Hoje, 15(89):
12-13. Figueira,
J.E.C., Vasconcellos-Neto, J., Garcia, M.A. & Souza, A.L.T. de, 1994.
Saurocory in Melocactus
violaceus (Cactaceae). Biotropica,
26(3): 295-301. Gould,
S.J., 1989. Wonderful
life. Nova York, W.W. Norton.
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