|
Citação bibliográfica
Argel, M., 1997. Segurança de vôo: as aves como um problema para a aviação. In: www.marthaargel.com.br. Acessado em [data de seu acesso].
Atenção: este é um texto inédito, escrito em 1997 e divulgado aqui por primeira vez.
--- Lembre-se sempre de citar a fonte de informações obtidas na Internet --- --- Seja ético e respeite os autores ---
|
|
Segurança de vôo: as aves como um problema para a aviação Biól.
Martha Argel Ph. D.
em Ecologia
1. FATOS GERAIS
1.1. Introdução
As aves representam uma ameaça séria, mas freqüentemente mal
compreendida, para as aeronaves. A maioria dos choques com aves não traz
qualquer dano para as aeronaves, mas algumas colisões têm levado a
acidentes sérios, que envolvem aeronaves de todos os tipos e tamanhos.
Entre 1912 e 1997, no mundo todo mais de 200 mortes foram atribuídas
a acidentes ocorridos com aeronaves civis e militares, em decorrência de
colisões com aves (Transport
Canada, 1997a). Aeronaves
diferentes apresentam riscos diferentes de colisão, e de forma geral
tanto os aviões modernos quanto os mais antigos têm características que
tornam possível uma colisão. Por exemplo, muitas aeronaves antigas,
ainda em serviço, não cumprem as exigências atuais quanto à resistência
em caso de sucção de aves, mas continuam sendo usadas devido à expansão
do mercado de viagens aéreas. Pelas exigências atuais, os jatos modernos
de grande porte devem ser capazes de aterrissar em segurança após serem
atingidos, em velocidades normais de operação e em qualquer ponto, por
uma ave de 4 libras (cerca de 1,8 kg). No entanto, os aviões a jato são
rápidos e silenciosos, e essas duas características reduzem a
probabilidade de que as aves detectem e evitem a ameaça que se aproxima.
Quanto mais veloz e silenciosa a aeronave, maior o risco de colisão.
1.2. Colisões entre aves e
aeronaves: algumas estatísticas
Dados referentes a colisões entre aeronaves e aves no Brasil,
divulgados no final da década de 80 pelo Centro de Investigações e
Prevenção de Acidentes (CENIPA), órgão ligado ao Ministério da Aeronáutica,
revelaram que, entre 1981 e 1989, mais de 200 choques haviam ocorrido no
Brasil, excluídas incidentes com aeronaves de pequeno porte (Storace,
sem data). Segundo esse relatório, entre 70 e 80% das colisões ocorreram
abaixo dos 150 m de altura; 25% das colisões ocorreram na decolagem e 14%
no pouso.
No Canadá, a taxa de colisões entre aves e aeronaves durante o
ano de 1993 foi de uma para cada 6775 movimentos de aeronaves (Transport Canada, 1994).
A análise de 16488 colisões com aves, registradas entre 1989 e
1992, em diversos países, pelo Bird Strike Information System (IBIS) da
International Civil Aviation Organization (ICAO) (Transport
Canada, 1994), revela que:
-
71% das colisões reportadas ocorreram durante o dia, 21% à
noite e o restante nas horas crepusculares;
-
75% envolveram aviões com mais de 27.000 kg;
-
36% ocorreram durante a aproximação e 23% durante a corrida
de decolagem;
-
58% ocorreram abaixo de 100 pés (cerca de 30 m) de altura;
-
em 86% dos casos os pilotos não foram avisados quanto à
atividade de aves;
-
em 93% dos casos não houve danos às aeronaves, mas estes
foram substanciais em 3% dos eventos (483 casos). Não houve conseqüências
para o vôo em 73% dos casos; pousos de precaução foram feitos em 3% das
ocorrências e em 1,5% a decolagem foi abortada.
Na América do Norte, a maioria das colisões envolve aves pesando
4 libras (cerca de 1,8 kg) ou menos.
Os dados disponíveis mostram que a proporção de colisões com
aves está relacionada ao tamanho e à velocidade da aeronave: de 849
choques reportados em 1988, 71% ocorreram com aviões a jato e apenas 5%
com aviões a pistão, embora jatos tenham representado apenas 18% de todo
o movimento aeronáutico daquele ano, contra 61% constituídos pelas
aeronaves a pistão. Assim, a incidência de choques com aves é muito
mais intensa em jatos; a probabilidade de um jato atingir uma ave é 64
vezes maior do que a de uma aeronave a pistão. No entanto, colisões sérias
podem ocorrer entre aves de grande porte e aviões pequenos, resultando em
penetração pelo pára-brisas e outros danos estruturais. A experiência
tem mostrado, porém, que, nos aeroportos, aves e pilotos de aeronaves
leves conseguem evitar-se mutuamente com considerável sucesso (Transport
Canada, 1994).
No Reino Unido, mais de 80% das colisões ocorreram a velocidades
entre 80 e 160 nós (ICAO, 1994). A aproximação final de um Cessna 152 se dá a uma
velocidade de 70 nós, ou cerca de 30 m/s. Segundo Transport
Canada (1997a), as aves têm
tempo de sair da frente de uma aeronave, que esteja a uma velocidade de até
80-90 nós.
A maior perda de vidas devido a uma colisão com aves se deu em 4
de outubro de 1960, quando um Electra 188 caiu em Boston, MA, EUA, após
três de suas quatro turbinas terem sugado estorninhos; morreram 62 dos 72
passageiros e tripulantes (Curtis,
1997).
1.3. Que aves representam perigo para a aviação?
Para a
Transport Canada (TC), todas as
aves (bem como os mamíferos!) que freqüentam aeroportos devem ser
encaradas como riscos potenciais para a segurança das aeronaves (Transport Canada, 1994).
Qualquer ave, mesmo que pequena, tem potencial para causar dano a uma
aeronave, mas quanto maior for, maior o potencial para danos em um único
choque. A probabilidade de colisão aumenta com o número de aves que compõem
um bando.
Assim,
as espécies grandes e que vivem em bandos são consideradas a
maior ameaça, pois o impacto sobre a aeronave depende da massa da ave e
do quadrado da velocidade daquela. No hemisfério norte, por exemplo, as
gaivotas (gênero Larus) e os
gansos (gênero Branta) são os
grupos que mais colisões sérias acarretam. As populações de gaivotas têm
crescido muito nos últimos trinta anos, em razão de sua habilidade em
explorar o lixo humano como fonte de alimento.
Diferentes aves reagem de forma diferente ao detectarem a aproximação
de uma aeronave. Abaixo estão alguns exemplos de características
comportamentais que podem contribuir para o maior ou menor risco de colisões.
-
aves de rapina tem sido reportadas até mesmo atacando
planadores e aeronaves;
-
aves aquáticas tentam evitar os aeroplanos;
-
é improvável que aves que em geral vivem entre árvores (espécies
florestais) se envolvam em colisões, a menos que estejam migrando;
-
gaivotas tentam voar mais rápido que a aeronave que se
aproxima e não costumam tentar se desviar para os lados, como fazem
outras aves;
-
aves grandes, de vôo lento, como as aves de rapina que usam o
espaço aéreo de aeroportos para atividades como caça e procura de
presas, são boas candidatas a encontros fatais com aeronaves.
1.4. Estudos de caso: a
situação em alguns aeroportos canadenses
Os
dados abaixo apresentados constam de Transport
Canada (1994):
North
Bay Airport: no passado enfrentou problemas sérios com gaivotas,
devido à proximidade de um aterro sanitário. Com a desativação desta
instalação, o número de aves reduziu-se consideravelmente.
Sault
Ste. Marie Airport: adjacente a grandes corpos d'água com inúmeras
colônias de gaivotas (Larus
sp.), apresenta uma população residente de cerca de 300 dessas aves, uma
situação considerada aceitável. Não tem um programa regular e controle
de fauna, e, quanto necessário, usa técnicas de afugentamento das aves
para dispersar concentrações de gaivotas.
Oshawa
Municipal Airport: situa-se em uma área onde cerca de 250.000 se
alimentam e pernoitam. Com a utilização de técnicas de controle de
aves, a população de aves que atualmente utilizam as dependências do
aeroporto é pequena.
Toronto
Island Airport: cerca de 80.000 gaivotas vivem em seu entorno. Não
é permitida a utilização deste aeroporto por aviões a jato, e o tráfego
aéreo consiste principalmente de aeronaves leves e médias, mono e
bimotores, com uma pequena movimentação de aeronaves maiores, com várias
turbinas, destinadas ao transporte de passageiros.
2. AVES E AEROPORTOS NO
ESTADO DE SÃO PAULO
2.1. Espécies de aves que representam risco
As
aves que mais ameaçam a segurança de vôo nos aeroportos do hemisfério
norte não representam problemas no estado de São Paulo: não existem
populações de gansos, enquanto os níveis populacionais de gaivotas
(principalmente Larus dominicanus)
são bastante baixos.
O papel de detritívoros que as gaivotas desempenham no hemisfério
norte aqui é desempenhado por outras aves, de maneira que uma das espécies
potencialmente mais perigosas é o urubu-de-cabeça-preta (Coragyps
atratus). Essa ave ocorre em áreas abertas por todo o território
nacional, sendo comum nos arredores dos depósitos de lixo em todas as
cidades, grandes ou pequenas. Essa espécie é considerada o principal
problema em vários aeroportos, como no Aeroporto Internacional de
Guarulhos. Também fora de São Paulo a espécie traz riscos, como no
Aeroporto Internacional do Galeão.
Podem trazer problemas, ainda, algumas aves de rapina que voam
lentamente sobre áreas abertas, em busca de presas. No estado de São
Paulo, as espécies mais comuns são o urubu-caçador (Cathartes
aura), o gavião-peneira (Elanus
caeruleus), o gavião-carijó (Buteo
magnirostris), o carcará (Polyborus
plancus) e o gavião-carrapateiro (Milvago
chimachima).
O urubu-caçador, uma ave que ocorre por quase todo o Brasil é uma
ave que merece atenção, apesar de não se ter dados sobre o risco que
efetivamente representa para nossa aviação. Nos EUA, é a espécie que
maior risco traz para a aviação militar: desde 1989 envolveu-se em mais
de 200 colisões e custou à Força Aérea norte-americana mais de US$ 30
milhões, quatro aviões e três vidas (MacKinnon,
1996).
Algumas espécies de aves aquáticas, que se estabelecem em colônias
mesmo em áreas muito antropizadas, inclusive cidades, e que conseguem
encontrar seu alimento em corpos d'água com altos níveis de poluição,
podem representar um problema, principalmente porque em geral seu local de
pernoite é distante dos locais de alimentação, tornando necessários
longos vôos diários, às vezes em bandos de algumas dezenas de indivíduos.
É o caso, por exemplo, do biguá (Phalacrocorax
olivaceus), e de algumas garças, como a garça-branca-grande (Casmerodius
albus) e o socó-dorminhoco (Nycticorax
nycticorax). Particularmente perigosa é a garça-branca-grande, que
freqüenta águas muito poluídas e regiões costeiras onde se acumula
muito lixo; essa espécie constitui problema, por exemplo, no Aeroporto
Internacional do Galeão, no Rio de Janeiro (RJ).
Um outro grupo que pode trazer problemas no hemisfério norte mas
que provavelmente não representa grandes riscos no sudeste brasileiro são
as aves migratórias. Os movimentos migratórios em nossa região são
muito menores, tanto em termos de espécies quanto de números de indivíduos.
Segue-se uma caracterização sucinta dos principais grupos de aves migratórias
nesta região.
- aves limícolas (maçaricos e batuíras, das famílias
Charadriidae e Scolopacidae): muitas espécies voam em grandes bandos, com
rotas que seguem tanto a costa quanto o interior do continente. As espécies
migratórias dessa família não parecem representar um problema muito sério
no hemisfério norte: estiveram envolvidas em cerca de 4% das 751 colisões
reportadas no Canadá no ano de 1996 (Transport
Canada, 1997b). No entanto,
merece atenção o fato de que uma espécie do gênero Vanellus
esteve envolvida em alguns acidentes graves (em 1975, em Dusfold, Reino
Unido, Vanellus foram ingeridos
pelos motores de um HS125 Viper em sua subida inicial, causado a queda do
avião sobre um carro, cujos seis ocupantes morreram; em 1995, no
aeroporto de Bourget, França, um Dessault Falcon 20 chocou-se com pelo
menos 15 Vanellus e acabou caindo, após incendiar-se [Curtis, 1997]). Na França,
o gênero Vanellus é
considerado uma ameaça para a aviação (Briot,
1996). Uma espécie desse gênero,
o quero-quero (V. chilensis) é
comum por todo o estado de São Paulo, inclusive encontrando excelentes
condições de estabelecimento nos gramados bem aparados dos aeroportos,
como por exemplo o Aeroporto de Congonhas e o Campo de Marte (ambos na
cidade de São Paulo). Embora não haja indicações em literatura,
observações pessoais indicam que esta ave se reúne em grandes bandos,
numa época do ano ainda não determinada, para realizar movimentos de
amplitude também desconhecida (M.M. Argel-de-Oliveira, não publ.). O
potencial de risco desta espécie é desconhecido. Aparentemente, as aves
residentes em aeroportos acabam habituando-se ao “comportamento” das
aeronaves, o que reduz sensivelmente a possibilidade de choques.
- andorinhas (família Hirundinidae) e andorinhões (família
Apodidae): essas duas famílias se alimentam de insetos alados durante o vôo,
e têm espécies com comportamento migratório, e são mais numerosas no
aparecendo no estado durante os meses mais quentes.
Duas espécies de andorinha, Progne
subis e P. chalybea, em determinadas épocas surgem em bandos grandes, que durante o
crepúsculo sobrevoam áreas urbanas para recolherem-se a árvores e galpões
abertos, com vigas de sustentação, para o pernoite. Tais bandos podem
ser vistos tanto no litoral quanto no interior do estado; há alguns anos
eram famosas as concentrações dessas aves na praça central de São José
do Rio Preto, onde constituíam uma atração turística. Em geral os
bandos de andorinhas tendem a ser sedentários, estabelecendo-se em um
determinado local.
Um problema especial pode decorrer da passagem esporádica de
bandos do andorinhão S. zonaris.
Essa espécie pode trazer algum risco para aeronaves em função de:
*
imprevisibilidade da presença e deslocamento de bandos:
grandes bandos, com algumas dezenas de indivíduos, surgem subitamente,
com as aves percorrendo o céu a grande velocidade, em trajetórias curvas
e em várias direções. Permanecem sobre uma dada área por períodos
curtos, 20-30 minutos, antes de desaparecerem por completo
*
alta velocidade de vôo: para Sick
(1997), pode-se admitir que a
velocidade do vôo a pique dessas aves pode chegar a 150 km/h; em vôo
normal, deve ser comparável à de uma espécie de outro gênero, que é
de 103 km/h. Deve-se notar, porém, que essa característica, se por um
lado aumenta o perigo nos casos em que o choque se dá com aves que voam
de encontro à aeronave, por outro o reduz notavelmente caso aves e
aeronave estejam voando na mesma direção, pois reduz a força do
impacto.
Não se pode esquecer, porém, que andorinhões, por se alimentarem
em vôo, guiados pela visão, têm tremendas acuidade visual e agilidade
de manobra, o que provavelmente lhes confere facilidade para perceber e
esquivar-se de aeronaves, principalmente as ruidosas e pouco velozes.
- aves marinhas: na região marinha adjacente à costa, as
principais aves migratórias são algumas espécies de trinta-réis (família
Laridae, gênero Sterna e outros
assemelhados) que se reproduzem em altas latitudes (principalmente
boreais, mas também austrais) e transitam por nossas costas em épocas do
ano bem definidas (abril-maio e outubro); as populações que aqui se
fixam são pequenas se comparadas com as que são observadas nos locais de
cria e de invernada. Deve ser mencionado que leigos mal-informados em
geral referem-se equivocadamente a outras aves marinhas - os atobás (Sula
leucogaster), as fragatas (Fregata
magnificens) e os gaivotões (Larus
dominicanus) - como “aves migratórias”, por influência talvez de
publicações e documentários estrangeiros. Tais espécies são
residentes na costa paulista e efetuam outros tipos de deslocamentos (diários,
para alimentação e pernoite) que nada têm a ver com migrações.
-
pássaros pertencentes à família Tyrannidae: muitas espécies
de aves insetívoras estão presente no estado apenas durante parte do
ano. A maioria aparece nos meses quentes, depois de passar a época fria
em regiões mais setentrionais, mas algumas espécies são visitantes de
inverno, vindas de latitudes mais austrais. Ao primeiro grupo pertencem,
por exemplo, o siriri (Tyrannus melancholicus) e a tesourinha (Tyrannus savana), muito comuns no estado entre agosto e maio.
-
migrantes altitudinais: nas serras do sudeste brasileiro, um
grande número de espécies de aves realiza movimentações de pequena
amplitude, descendo para áreas mais baixas durante os meses frios. Essas
movimentações envolvem principalmente espécies florestais, em especial
de beija-flores (família Trochilidae), sabiás (família Turdidae) e saíras
(família Thraupidae).
Os padrões de migração são mal conhecidos para esses grupos,
mas de maneira geral pode-se dizer que não há grande diferença entre
regiões interioranas e litorâneas quanto ao risco representado por aves
migratórias. O único grupo presente apenas no litoral é o dos
trinta-réis,
de importância quase nula em termos de risco para as aeronaves
-
no Canadá, por exemplo, em 1996 um só incidente (0,1% do total)
envolveu trinta-réis (Transport
Canada, 1997b).
Algum risco deve ser representado pelo pombo-doméstico (Columba livia), uma espécie que no sudeste Brasil praticamente
nunca deixa de se estabelecer onde quer que o ser humano esteja
estabelecido e cujo controle populacional é extremamente difícil.
2.2. A legislação
brasileira
A legislação brasileira sobre segurança aeroportuária no caso
de aves é bastante exígua. A Resolução CONAMA no. 4, de 9 de outubro
de 1995, determina que, num raio de 13 do aeródromo, não devem ser
implantadas atividades de natureza perigosa, entendidas como “focos de
atração de aves”, tais como matadouros, curtumes, vazadouros de lixo e
culturas agrícolas que atraem aves. A Resolução não dá maiores
detalhes quanto a quem tem a responsabilidade de atuar no disciplinamento
do uso do solo e na vigilância da área, quais seriam as culturas agrícolas
de maior risco ou quais as aves cuja presença seria indesejada na área
do aeródromo.
3. PREVENÇÃO DE COLISÕES ENTRE AERONAVE E AVES
3.1. O aeroporto
A
prevenção das colisões com aves deve começar nos aeroportos, pois
cerca de 98% dos incidentes ocorrem durante as manobras de decolagem,
ascensão, aproximação final, aterrissagem e taxiagem. (Transport
Canada, 1994)
Qualquer mamífero ou ave em aeroportos deve ser encarado como um
risco potencial para a segurança. Assim, é necessário que a localização,
a construção, a manutenção e a operação de qualquer aeroporto leve
em conta medidas que minimizem esse risco. O risco de colisões com
animais existe em qualquer aeroporto, mas aqueles situados próximo a áreas
úmidas ou reservas naturais apresentam maiores chances de ter acidentes
significativos.
A TC recomenda a elaboração de planos de manejo e controle de
fauna (compreendendo aves e mamíferos) pelos aeroportos. Uma vez que não
há dois aeroportos que apresentem as mesmas características ambientais e
os mesmo problemas com aves, essa empresa considera necessários estudos
específicos a cada aeroporto quanto à fauna de aves que freqüentam suas
instalações e seu entorno. Uma vez identificadas as aves que representam
problemas potenciais sérios para a segurança de vôo, a TC recomenda que
o plano de manejo lhes dê ênfase especial.
Deve-se considerar que, como a probabilidade de choques com aves é
muito maior para aviões a jato, grandes e velozes, a probabilidades de
ocorrência de tais eventos em um aeroporto refletirá a intensidade com
que ele é utilizado por jatos. Assim, planos de manejo e de controle de
fauna são especialmente necessários para aeroportos internacionais e
intercontinentais.
Há inúmeras técnicas eficientes para a redução das populações
de aves e mamíferos na área do aeroporto. segundo Curtis
(1997), em geral tais técnicas
podem ser encaixadas em três linhas de ação que, consistem em:
-
tornar o ambiente pouco atraente para as aves e para os mamíferos,
pela eliminação de atrativos como locais de pouso, descanso, alimentação,
dessedentação e reprodução;
-
afugentar os animais, usando a pirotecnia, a falcoaria ou gravações
com gritos de alarme, de agonia ou de predadores;
-
reduzir as populações de aves e de mamíferos, removendo
indivíduos, vivos ou mortos.
A modificação do hábitat é a primeira linha de defesa contra
problemas com a fauna silvestre no local do aeroporto. É a medida
potencialmente mais eficaz e mais duradoura caso o ambiente seja
modificado e manejado para se tornar o menos atraente possível para a
fauna. Se o aeroporto continua adequado para o estabelecimento de animais,
métodos de afugentamento e eliminação de animais devem continuar a ser
utilizados, em geral aumentando os custos de operação do aeroporto.
Além dos cuidados com a área do próprio aeroporto, o manejo das
aves e dos mamíferos inclui o controle das práticas de uso do solo no
entorno do aeroporto. Instalações como lixões, aterros sanitários, fábricas
de processamento de peixes, usinas de compostagem e certas atividades agrícolas
são consideradas de alto risco, por atraírem aves. Às vezes, os
elementos atrativos não são de forma alguma óbvios: uma grande
quantidade de trevo ao longo da pista de Orly (Paris, França) atraía
milhares de pombas do gênero Columba, e problema foi resolvido com a aplicação de herbicidas (Briot,
1996)
Deve-se ter sempre em mente, porém que mesmo que sejam empregados
um ou vários métodos de controle, nunca será possível o controle total
dos animais que freqüentam os aeroportos, de forma que pilotos e pessoal
de terra deverão estar sempre atento para a presença de animais que
representem risco potencial (ver a seguir).
3.2. Procedimentos do piloto
Algumas
normas de conduta do piloto contribuem para reduzir os riscos de colisão
com aves (modificado de Transport
Canada, 1997a).
-
enquanto taxiando, atentar para a presença de aves no
aeroporto;
-
havendo aves por perto, principalmente na pista, solicitar ao
pessoal de terra para dispersá-las antes da decolagem, mas nunca
usar a aeronave para afugentar as aves;
-
ao localizar aves adiante da aeronave, tentar passar acima
delas, pois quando ameaçadas, em geral as aves tentam escapar voando para
baixo;
-
planejar o vôo de forma a voar o mais alto possível, pois
apenas 1% das colisões ocorre acima de 2500 pés (cerca de 850 m) de
altitude;
-
evitar voar sobre áreas de preservação, lixões, aterros
sanitários, matadouros e fábricas de processamento de peixe;
-
evitar seguir, em vôo, o curso de rios e linhas costeiras,
especialmente a baixa altitude, pois as aves também se orientam por essas
feições geográficas;
- se bandos de aves forem detectados durante a aproximação,
voltar para uma segunda tentativa, pois o caminho pode então estar livre.
- aeronaves estacionadas por mais de dois dias devem ser checadas
cuidadosamente antes de levantar vôo, em busca de vestígios (penas,
palhas, gravetos, crina de animais) de que aves estejam nidificando em seu
interior, principalmente entre setembro e fevereiro. Em outros países
foram relatados casos de aves que começaram a fazer seus ninhos dentro de
aeronaves que haviam pousado poucas horas antes.
4. BIBLIOGRAFIA CITADA Briot, J.-L., 1996. The fight against bird hazards on civil aviation in France. p. 7-14.In: Congresso Brasileiro de Ornitologia, 5, Campinas, SP, 1995. VIEILLARD, J.M.E., SILVA, M.L. & SILVA, W.R. (eds). Anais. Campinas, UNICAMP. Curtis, T., 1997. Birds hazards to aircraft. Divulgação por mídia eletrônica. MacKinnon, B., 1996. New technologies in wildlife control. Airport Wildlife Bulletin, (19). Sick, H., 1997. Ornitologia brasileira. Rio de Janeiro, Nova Fronteira. 862 p. Storace, A., sem data. Estudos para o novo Aeródromo Público Municipal de Ilhabela. Capítulos 13, 14 e 15. Ilhabela, Prefeitura Municipal. Transport Canada, 1994. Procedures manual. Divulgação por mídia eletrônica. Transport Canada, 1997a. Bird avoidance brochure. Divulgação por mídia eletrônica. Transport Canada, 1997b. Canadian bird strike statistics for 1996. Divulgação por mídia eletrônica.
São Paulo, setembro de 1997
|