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Lucila… – chamou Valente, o Cavaleiro Nobre, perdido no limiar entre o
reino onírico e o mundo sólido – … tu me deves acompanhar. Corres
perigo, formosa dama, em meio a esses vampiros todos, e eu não te posso
proteger. Pega a minha mão, acompanha-me, Lucila. –
Cai fora, cara. Não tá vendo que tô precisando dormir? Porra, depois de
dois dias e duas noites direto com um gatão infernal que eu não
experimentava fazia duzentos e vinte anos, cê acho que eu tô a fim de um
babaca qualquer metido a herói achando que eu sou mocinha de filme B? Cai
na real, meu! Valente,
o Cavaleiro Nobre, hesitou. Cair na real é que ele não podia. Ele era
uma criatura do mundo dos sonhos, no mundo real esvair-se-ia, perderia
substância até transformar-se em não mais que tênue neblina, que seria
dispersada pelo mais leve dos ventos. –
Ah, senhorita, não avalias os riscos que corres. Tua alma ainda tem salvação.
Vê, teu coração ainda é capaz de se aquecer pelo amor a um mortal,
pois que não é pelo demônio dissimulado em humano que ele anseia, e sim
por outro, um humano de fato.
Apressa-te, pois o tempo se escoa. Segura minha mão e vem comigo para o
Reino de Faerie sem demora, enquanto os vilões estão ocupados, agindo
nas sombras, dedicados a seus negros desígnios. Pois em breve eles se
reunirão, e aqui virão, para fazer-te mal, e tomar-te para sempre a
chance de voltar a ter de novo tua alma. E isso eu não desejo, pois a
pureza de teu rosto conquistou para sempre meu coração –
Ah, então é essa a tua, né, pentelho encravado? Que venham os vilões,
uns pescoços quebrados até que completavam minha noite. –
Não te entendo, doce Lucila… –
Que doce o cacete, vem cá que eu te mordo e você entende tudo. –
Bruxa! Bruxa travestida de donzela! –
Donzela nem na ponta do mindinho, trouxa. Vampira, asno, vampira. –
Bruxa! Bruxa, assanhada e louca! Vade retro, que tu ardas no fogo eterno
do mais profundo inferno! –
Porra, mas você fez curso pra ser pentelho ou é um dom natural? Hummm,
sabe que até que você parece fortinho? Vem cá, meu fofo. –
Jamais!! E
então Valente, o Cavaleiro Nobre, tentou correr rumo à janela, sob a
qual esperava do lado de fora Branco, seu luzidio cavalo negro, sempre
garboso e pronto a carregar o cavaleiro fujão de volta ao lar, ao mítico
reino de Faerie. Mas
mesmo em sonho Lucila foi mais rápida, e sua mão se fechou sobre a nuca
do cavaleiro que, tolo, havia esquecido sua prateada e reluzente armadura
pendurada num armário de seu castelo. Normalmente
Lucila é muito cuidadosa ao se alimentar de suas vítimas. Sangue
escorrendo é pra vampiros babões, não para ela, uma dama do século
XVII. Mas aquele pentelho conseguira irritá-la. Ela
o puxou com violência e trouxe-o para si. Enfiando os dedos de unhas
longas através de sua clavícula, num tirão só arrancou-a, e o sangue
jorrou abundante. –
Aaaaaaaah – gritou Valente, o Cavaleiro Nobre. –
Hum. Adoro essa artéria! – e se atracou no tronco braquiocefálico,
regalando-se com o sangue que o coração bombeava com força para fora do
corpo destroçado do tolo faérico. Sangue
de fadas, no mundo dos sonhos, é quase tão bom quanto o de humanos no
mundo real. Já
tendo tomado o que tinha para ser tomado, Lucila olhou com asco a carcaça
quase sem vida, e atirou-a pela janela, como costumava fazer com o lixo
enquanto morou em Veneza. Ouviu um baque surdo, um relincho apavorado, e
um galopar desesperado que se afastava. O presunto devia ter caído em
cima do cavalo, mas quem liga? Olhou
o carpete ensangüentado e deu de ombros. A sujeira não era real. Ela não
ia ter trabalho. Real era o calor que invadia suas artérias e veias, e
aquecia a carne fria de vampiro. Ela
voltou para a cama, se ajeitou comodamente entre as cobertas e
abraçou o travesseiro. –
Detesto que invadam meus sonhos. Mas
quando foi o demônio de longo cabelo loiro que apareceu em seu mundo onírico,
ela sorriu. Aquilo não era uma invasão. O que aconteceu depois nos sonhos da bela vampira só é da conta dela, ô bando de curiosos!
Martha Argel
Este conto, escrito em março de 2001, foi meu agradecimento (muito pouco gentil, diga-se de passagem) à recepção que Adriano Siqueira me fez, com Sweet dreams, logo que cheguei ao Tinta Rubra, grupo de discussão de escritores-vampiros na Internet. Bela entrada, logo de cara matando o Valente, personagem fixo do anfitrião! Mas o conto marcou um momento histórico, pois foi aqui que, pela primeira vez, o cavaleiro Valente foi morto, coisa que viraria um hábito daí por diante. Veja as outras mortes do Valente em http://planeta.terra.com.br/arte/lord_dri/valente.html. |