
Amores PerigososCapítulo
Um
Pra dizer a verdade,
de uma hora pra outra eu havia me esquecido por completo do sorvete. Até
isso o medo é capaz de fazer comigo. Vampiro. Aquele deus grego que
se movia com elegância e displicência por entre as mesas da praça de
alimentação do shopping era um vampiro. Não me pergunte como
é que eu sabia. Resultado da convivência, acho. Fazia meses que não
aparecia nenhum vampiro querendo dar uma chupadinha nas minhas veias e artérias,
mas é como andar de bicicleta. Uma vez que você cria uma certa
intimidade com eles, nunca mais esquece como são. Não sei bem o que era.
A palidez, com certeza, mas não apenas isso. Talvez o charme irresistível
que irradiava dele, talvez a forma fácil como se movia, ou sei lá.
Talvez algo que inconscientemente eu fosse capaz de reconhecer depois de
meus contatos tão estreitos com os vampiros. Fosse o que fosse,
que eu tinha certeza absoluta do que ele era. Uma certeza tão absoluta
que me deixava morta de medo.
– ... e foi um
absurdo, porque a revista aceitou. Tudo bem, concordo que a gente tem que
dar uma força pras revistas científicas nacionais, mas elas pelo menos têm
que arranjar uns revisores decentes. Imagina só, aceitar um trabalho onde
o autor escreve mexer com ch! Nem revisar o texto no computador o
cara sabe? E esse é só um detalhe, porque precisa ver os erros lógicos
dele, as falhas metodológicas, e os revisores nem percebem, pode uma
coisa dessas? O trabalho... Eu adoro a Carol e
aquele assunto me faria fofocar por horas. Não é todo dia que um
desafeto seu publica, numa prestigiada publicação científica nacional,
um trabalho cheio de erros cabeludos, de todos os tipos, tamanhos e
modelos. E não é todo dia que esse tipo de coisa gera uma onda de e-mails
indignados – com a revista, com o autor, com os revisores. A Carol
estava por dentro de tudo, pois era amiga do editor e foi o ombro dela que
ele escolheu pra chorar as pitangas. A gente tinha
combinado se encontrar de tardezinha, depois que ela saísse da
universidade, para vir ao shopping, fazer umas comprinhas e comer
qualquer coisa caloricamente incorreta, tipo um sorvete fenomenal, que pra
mim combina muito bem com o frio do inverno, enquanto ela me punha a par
da encrenca. Nossa agenda tinha sido cumprida ao pé da letra. Até agora. Vampiros não estavam
no script. Merda. A Carol continuava
falando mas a voz dela era agora ruído de fundo. Eu só prestava atenção
naquele cara alto, cabelos curtos de um castanho-claro quase loiro, corpo
malhado e muito bem proporcionado, jaqueta de couro e jeans justos
e desbotados, que prometiam delinear uma bunda perfeita... Bem que ele
podia estar de costas, se afastando de mim, e não se aproximando, mas nem
sempre as coisas são como a gente quer. Bom, pelo menos não
era em mim que ele estava interessado. Em se tratando de vampiros, esse
pequeno detalhe já é suficiente pra me deixar feliz. Não era eu o alvo de
sua atenção. Ele vinha vindo com
um andar descansado. Quem não soubesse acharia que era apenas mais um
playboyzinho em busca de uma mesa vazia. Mas eu sabia.
Eu estava assistindo a uma caçada. Seu olhar era um olhar predador, e
estava fixo naquela moça de traços orientais sentada sozinha numa mesa,
a sua frente um prato de salada e uma revista aberta, que ela lia enquanto
mastigava devagar suas alfaces. Esguia, de pernas longas e saia curta. Um
bronzeado tão perfeito que só podia ter saído de uma clínica de estética,
dessas bem caras. Cabelo comprido, negro e brilhante. Olhos em fenda,
misteriosos. Lábios bastante desejáveis. Mãos delicadas e finas, com
dedos finos e lânguidos, unhas perfeitas de um vermelho sangüíneo.
Movimentos sedutores até ao virar as páginas de uma revista. Uma mulher
sabe reconhecer quando está em presença de uma criatura como essa, tão
sensual que ofusca qualquer outro ser humano do sexo feminino que esteja
num raio de cem metros. Nós sabemos reconhecer a concorrência desleal. O vampiro percorria
um caminho sinuoso e ao mesmo tempo decidido, aproximando-se da moça e
por tabela de mim. Ela estava a duas mesas de distância de onde Carol e
eu estávamos. Meu medo crescia a
cada passo que ele dava. Eu sabia muito bem do que um vampiro era capaz.
Eu tinha sentido, e mais de uma vez, na minha própria pele, o tremendo
poder de sedução dessas criaturas desconcertantes e o todo o perigo
dessa sedução. Na minha própria
pele... Ui, isso foi literal. Infelizmente. Hum, infelizmente? Sei lá. Tá,
admito, meus sentimentos com relação aos vampiros não estão nada
claros, mas deixa quieto, não gosto muito de pensar nesse assunto. O fato é que até
então eu achava que tinha ficado livre dos vampiros. Ah, droga, não
achava nada, eu estava era tentando me enganar. Claro que não era
verdade. A prova estava bem defronte de meus olhos, um vampiro sarado com
pinta de top-model chegando mais e mais perto, cada vez mais,
daquela verdadeira Miss Nissei Século XXI. Cacete. Eu tinha certeza do
que estava para acontecer. Ele faria algum comentário inocente, ela
levantaria os olhos, talvez até tivesse tempo de avaliar o atraente
material humano a sua frente. Então ela o olharia nos olhos. E estaria
perdida. Talvez
eu estivesse enganada. Eles poderiam ser amigos. Eles poderiam ser
amantes. Pelo que sei, isso até acontece entre vampiros e humanos. Eles
podiam simplesmente ter marcado um encontro ali no shopping, seguido de um
ardente momento amoroso que incluiria uma apaixonada doação de sangue. Algo, porém, me
dizia que não era nada disso o que estava rolando. Havia perigo ali, e eu
o sentia como um perfume no ar ou um ruído incômodo. O perigo fazia
formigar meu couro cabeludo e punha de pé os pelinhos de minha nuca. A
sensação de que eu precisava fazer alguma coisa, tomar uma atitude, era
irresistível. Mesmo que estivesse apavorada pelo que podia acontecer à
moça e pelo que podia acontecer comigo, e mesmo correndo o risco de
passar ridículo, pois caso estivesse certa e não agisse, aquela mulher
poderia estar morta antes do próximo nascer do sol. E não, eu não achava que estivesse errada.
Continua...
Martha Argel
Amores Perigosos é o segundo volume de uma trilogia vampírica, iniciada com Relações de Sangue. Embora esteja aprovado para publicação desde 2004, por um motivo ou outro seu lançamento vem sendo adiado desde então. Só resta ter paciência. Ninguém está mais ansioso do que eu para ver o livro pronto...
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