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O nome no letreiro luminoso, Covil, era explícito. Talvez um pouco óbvio demais, mas adequado. O cara alto, cabelo loiro e comprido preso num rabo de cavalo, ficou um momento parado na calçada em frente, olhando o entra-e-sai de pessoas no bar, como se estivesse em dúvida. Perdido em alguma profunda meditação, não percebia os olhares de apreciação que atraía dos passantes. De mulheres e de homens. Com uma última tragada do cigarro, ele pareceu chegar a uma decisão. Atirou na sarjeta uma bituca que era quase o cigarro inteiro e cruzou a rua, desviando-se com facilidade líquida dos carros que passavam devagar, os motoristas preocupados em caçar e ser caçados. Lá dentro era escuro, barulhento, esfumaçado. Apinhado. Divertido. Se ele estivesse procurando diversão, certamente ali era o lugar certo. Ali encontraria qualquer tipo de criatura. Poderia arranjar uma boa briga. Poderia até escolher alguma presa pouco usual para matar, talvez. Na verdade até que ele estava precisando de uma distração desse tipo, mas não era para isso que ele havia vindo ali naquela noite. Ele buscava alguém. Seus olhos examinaram o lugar, e de súbito se fixaram numa das mesas. Finalmente. Ele sorriu, e se alguém tivesse visto seu sorriso teria fugido assustado. Duas jovens, pálidas ambas. Uma delas pequenina, mal saída da adolescência, cabelos escuros, muito lisos e longos, e grande olhos castanhos e inocentes. A outra, mais velha um pouco, cabelos não tão lisos e nem tão longos, de um loiro não muito claro, olhos verdes faiscantes. Ele foi em direção ao balcão, e a multidão se afastou para que ele passasse, como se soubessem o que ele era. Pediu absinto. O barman quase abriu a boca para mentir que ali não serviam, mas pensou melhor ao ver o olhar que o cliente deu. Ele jamais teria coragem de contrariar alguém com olhos tão terríveis. O loiro ficou num canto, bebericando o absinto, sem pressa, muito à vontade, observando as duas mulheres. Ele conhecia uma delas. E podia ser paciente, quando queria. Por fim a loira se levantou com um gesto de irritação. A outra também se pôs de pé, colocando a mão no braço da amiga. Um gesto pacificador, que pelo visto funcionou. A loira, mais alta, se inclinou para diante e deu um beijo, não escandaloso, mas tampouco casto, na boca da moça mais baixa. Nem passou pela cabeça dele imaginar que elas eram namoradas. Seres como elas não ligavam para isso. Havia sido uma despedida. O caminho até a saída passava pelo balcão. Os olhos verdes que varriam, atentos, tudo a seu redor, acabaram encontrando o cara loiro e alto que tomava a bebida verde, tão bonita, e o mediram de alto a baixo, detendo-se em alguns lugares de uma forma tão explícita que ele sentiu seu corpo respondendo por conta própria. Quando os olhos dos dois se cruzaram, ele respirou fundo. Esmeraldas. Calor e frio, fogo e gelo, paixão e ira, prazer e crueldade. Ela tinha um olhar incrível. Ela passou por ele sem nem mesmo alterar o ritmo do andar. Ele apreciou o panorama dela se afastando e soltou o ar devagar. Algum dia ele gostaria de se encontrar com ela de novo. A moça de cabelos escuros estava agora sozinha, com uma taça de vinho tinto. Ok. Vinho tinto. Ele se sentou à mesa dela. – "O" positivo? Ela levantou os olhos, rápida, o rosto bonito entre alarmado e irritado, mas imediatamente a expressão mudou para intrigada. Uma ruga de suspeita surgiu entre as sobrancelhas, e ela esquadrinhou o rosto desconhecido do rapaz. Pouco mais de vinte, bonito, bonito até demais. Foi o olhar zombeteiro, e a malícia que transparecia em olhos azuis que eram velhos demais para a face jovem e pura, que lhe revelaram quem se ocultava por detrás daqueles traços de beleza devastadora. – Como se fizesse alguma diferença, sangue é sangue, sendo humano é sempre bom. Mas isso aqui é vinho. Chianti. – Você continua gostando dos italianos. Há quanto tempo, não, Blanche? – Muito mesmo. Não uso esse nome há uns… nossa, duzentos e vinte anos, o tempo voa, não? Belo corpo esse que você está usando. Espetacular, e você sabe como eu sou exigente com loiros… Eckhout? – Basquiat. – Outro pintor? Que original… – Escuta aqui, se eu vou te pedir um beijo, e tenho toda a intenção de fazê-lo, eu pelo menos preciso saber que nome você está usando. – Lucila. – Lucila, você me dá um beij... Ele não teve tempo de respirar. Ela o puxou pela frente da camiseta, e a boca que encontrou a dele era ávida, úmida e ousada. Foi demorado. Bastante. Teve até gente que se virou para olhar. – Hum, nossa, querido, você continua beijando bem pra cacete. Vamos de novo? – Espera eu recuperar o fôlego, Bla… Lucila. Ela riu, uma risada cristalina, de enlouquecer, e lhe lançou um olhar cortante como uma adaga e frio como o fogo do inferno. – Você sabe, eu não acredito em coincidências… – voz também fria e cortante. – Nem eu, meu anjo negro. – Como você sabia que eu estava aqui? – Aqui? Onde mais procurar uma criatura das trevas senão num bar chamado Covil? – Não, aqui em São Paulo. Aqui no Brasil. Ele deu um sorriso. – Não me ofende, Lucila. – Não estou te ofendendo, queridinho. Nem os demônios são oniscientes. Você não pode seguir os rastros de todo mundo o tempo todo. Muito menos por duzentos e vinte anos e através de três continentes. Ele deu uma gargalhada que a incomodou, por algum motivo aquilo lhe havia parecido muito engraçado. Ele a olhou com olhos intensos. – De todo mundo não. Só daqueles que me interessam. E dessa vez foi ele quem a puxou.
~ o ~ o ~ o ~ o ~
Muito mais tarde, ele abriu os olhos sonolentos e encontrou o olhar atento dela. Ela estava deitada de lado, a cabeça sustentada por um braço que se apoiava no travesseiro. Ele se sentia um pouco aéreo. Normal, considerando-se que cerca de meio litro do sangue que tinha sido dele era o que agora dava aquele adorável tom rosado à pele delicada da face dela. Ele baixou a vista para a borda do lençol, que quase revelava os seios pequeninos mas perfeitos, e levou a mão com o firme propósito de afastar o obstáculo e obter uma visão melhor. A mão dela se fechou como aço ao redor de seu pulso. Doeu. – O que você quer? – Ver seus peitos. – Basquiat… O movimento e a força dele pegaram-na de surpresa. Quando ela percebeu, estava de costas, prensada pelo peso dele contra o colchão macio. Não era uma sensação desagradável. Para nenhum dos dois, observou ela de si para si, um sorriso involuntário filtrando-se em seus lábios quando sentiu, através do lençol fino, o corpo dele reagindo. – A sua ajuda. – Você parece bem capaz de cuidar-se sozinho, demônio. Não consigo imaginar no que exatamente eu poderia ajudá-lo… – Não? Que falta de imaginação! Deixa eu te dar uma mãozinha… Demorou uns vinte minutos para que conseguissem retomar a conversa. Claro, um pouco ofegantes, e Basquiat tendo conseguido de volta uns bons mililitros de seu sangue. – Por mais que meu ego quisesse acreditar que você me procurou depois de duzentos e vinte anos por causa disso, eu sei que ainda vem coisa pesada por aí. Fala, o que você quer de mim? Ele a olhou, pensativo, antes de responder. – Eu preciso de um vampiro. – Tá falando com uma, querido. Não vou perguntar se você precisa que alguém fique sem sangue. Você o faria tão bem quanto eu, só que talvez usasse um punhal, mas de qualquer forma o efeito final seria o mesmo. – Sim. – Só sim? Nenhuma explicação? – Você é esperta, Lucila, vamos ver até onde chega. – Ai, demônios espertinhos, odeio isso. Vocês e seus jogos. – Como se vampiros fossem santos. Querida, às vezes vocês inventam uns joguinhos que até eu me admiro. – Uau. Receber um elogio seu me deixa sem jeito. Sou até capaz de enrubescer como o seu sangue. Mas você está me enrolando. – Quem está enrolando é você. – Hum, você quer dizer que vou ter de adivinhar, né? – É. – Tá legal, eu sei que não adianta insistir com você. Hum, vejamos. Tem que ser um vampiro? – Tem. – Não pode ser uma fada, um orc, uma bruxa, um ogre…? – Não. – Não é de nossa força que você está atrás, porque um orc seria muito mais forte do que eu. Também não é o poder de enlevar as pessoas, pois uma fada é bem melhor nisso. Não é a nossa, hã, falta de escrúpulos, porque com você eu estaria ensinando o padre nosso ao vigário, por assim dizer. Não tem a ver com idade porque perto de você qualquer ser na face da terra não passa de um bebezinho de colo precisando que alguém lhe troque as fraldas. Hum, isso elimina praticamente tudo. – Praticamente. – Exceto o fato de estarmos mortos. – Exceto isso. – Você é um pé no saco, sabia? – Sim. Continue. – Então você precisa de um morto. Ou melhor, um não-morto. Não pode ser um não-morto sem vontade própria, como um zumbi. Ou sem capacidade de raciocínio, como um ghoul. Ou sem matéria física, como um espectro. Em suma, você precisa de um cadáver que pense e tome decisões e possa tocar, segurar ou mover coisas materiais. – Até aqui tudo bem. Continue. – Bom, então, com o que sei até agora só consigo pensar em algo que envolve alguma maldição. Algo que foi enfeitiçado de forma a não poder ser tocado, ou não poder ser usado, por qualquer ser vivo, seja da Terra, seja daquele lugar de onde as fadinhas e os elfos estão sempre escapando, Arkansas, Alaska, Aspásia, Araraquara … – Blanche… – Lucila, amor. Arcádia, Arcádia. Nossa, você está mesmo mal-humorado. – Não estou, e você nunca me viu mal-humorado. Não queira. – E não vai ser agora, gato. Isto está muito interessante. Bom, vejamos, onde estávamos? – Lucila, quer tirar a mão daí? – Isso distrai você, demônio? Engraçado, a mim não. Bom, continuando. Suponho então que você tenha algum plano obscuro no qual eu te ajudaria a conseguir, ou faria funcionar, algum artefato poderoso, que vai lhe dar um poder incrível, e que algum feiticeiro ou mago ou demônio ou anjo encantou justamente para que não fosse usado. Quente ou frio? – Quente. – Tá, e você já tem a coisa? Se tem, me dá ela logo, a gente acaba de uma vez com isso e pode voltar ao que interessa. Ao que me interessa. – Ai! Dá pra apertar menos? – Sensível, você. Cadê? – Como cadê? Vai, continua. Você está se saindo tão bem… – Obrigada. – Estou falando de seu raciocínio. Ui! Quer dizer, também de seu raciocínio. – Hum, tá, suponho que você não tenha o bagulho com você, senão a gente não estava aqui tão gostosinho, e você não estava me enrolando tanto. Então suponho que ou você não sabe onde a coisa está ou sabe mais não pode pegá-la. Como você está muito convencidinho e senhor de si, acho que sabe onde ela está, e só não pode pegá-la. – Pode ser. Mais pra cima um pouquinho. Uh, isso. – Se sabe e não pegou, é porque ela está protegida contra seres viventes, e você precisa de mim justamente para pegá-la pra você. Quente? – E esquentando. – E me diz uma coisa, os pré-requisitos para o emprego exigem aparência humana? – Bem humana. – Boa aparência? – Aparência saudável. – Feminina? – Não necessariamente, mas ajuda. – Então vou ter de seduzir alguém, que não pode saber quem eu sou e o que eu sou, e pegar o que você está querendo. Quente? – Bem quente. – E eu não posso matar essa pessoa, ou ser? – Depende. – Como depende? Ah, peraí. Não posso matar antes de pegar o bagulho. – Isso. Aaah. – Está bom assim? – Maravilha, continua. Com a adivinhação também. – Suponho que se eu matar a pessoa, ou ser, o barato será destruído. – Hum-hum. – Mas depois que eu tiver a coisa em meu poder eu posso matar a pessoa, ou ser. – O que você quiser. – Parece divertido. Deixei algo importante de fora? – Da história, não. – Tá, então eu topo. – Você promete que vai me ajudar? – Tem a minha palavra, demônio. – Lucila, querida, podemos deixar o resto das explicações pra depois? Uhh!
~ o ~ o ~ o ~ o ~
Deus, ele estava tão cansado, tão cansado. Havia noites em que a carga era demais. A carga do mundo. Ele ajeitou melhor o cobertor ao seu redor. Não fazia frio de fato, mas em seu estado constante de debilidade mesmo o frescor suave das noites de abril o fazia tremer incontrolavelmente. Ele sabia, era por causa da alimentação inadequada. Inadequada, essa é boa. Insuficiente. Há dias ele não comia nada mais substancial do que umas laranjas meio passadas e um resto de arroz frio. A falta de combustível afetava seu metabolismo. Palavras que ele teria usado quando era professor de bioquímica. Há tantos anos. Noutra vida. Noutra era. Antes que ele tivesse de deixar de ser uma pessoa, alguém. Hoje ele era ninguém, há anos era nada. Precisava não-ser, não apenas por sua vida, mas, mais importante, pela vida de milhões, pela teia da realidade. Ele se sentiu aquecido depois de ajeitar o cobertor, mas estranho, uma coberta tão puída, tão fina, não era possível que tanto calor emanasse dela. Um olhar, era um olhar o que aquecia sua nuca. Ele se virou embaixo de seus trapos, alarmado, ressabiado, curioso. Uma menina o olhava. Talvez fosse um pouco mais velha do que parecia, mas os olhos muito abertos lhe davam um ar assustado que a tornava muito jovem. Aquele olhar assustado com que os muito jovens costumam contemplar os mistérios do mundo, antes que a idade e o convívio com os adultos os façam perder a inocência, a curiosidade, a magia. – Como pode alguém viver assim? – ela sussurrou, não para ele, para si mesma. – Perdão, a senhorita deseja algo? – a voz dele ainda era educada, a linguagem precisa e rica. O pouco que restava de seu passado de professor da USP. A desconfiança eterna não era motivo para que fosse mal-educado, pois no mais das vezes era apenas isso. Desconfiança. Cautela excessiva. Deus, que cansaço. – Como pode alguém viver assim? – ela repetiu, mais alto agora, para ele, para o mundo, um lamento juvenil, impotente, contra as injustiças da vida. Imerso nas águas sombrias da incerteza e da esperança, ele não respondeu enquanto ela se aproximou dois passos. Ela parou, e ele notou um franzir leve do nariz delicado. Ele sentiu vergonha. Após tantos anos e apesar de seus motivos, ele ainda sentia vergonha. – Perdão, mocinha, infelizmente para quem vive na rua as condições sanitárias não são das mais adequadas… Ela se ajoelhou, devagar, examinando-o como a uma escultura incompreensível. A inquietação novamente se apossou do homem velho e andrajoso. – O que quer, senhorita? – tornou a perguntar, a desconfiança de décadas um hábito difícil de ignorar, não que ele pensasse em ignorá-lo – Você não devia estar neste buraco-quente a estas horas da noite, e ainda mais sozinha. Vá embora para casa. Ela falou, como se em meio a um sonho. – Eu me perdi… estou perdida faz horas… Ele viu o brilho da umidade nos olhos dela, lágrimas que ameaçavam transbordar, e sentiu de repente a necessidade de ajudá-la. Nenhum de seus alarmes internos soava, nenhum dos alarmes que protegiam sua possessão mais valiosa, sua única possessão. Nenhum filamento de magia vibrava, nenhum dos feitiços de alerta se retesava sobre sua mente avisando da presença de uma alma perversa, ou da magia voltada para o mal, ou de qualquer magia. Nenhum motivo de desconfiança. Nada. Nada perigoso irradiava dela. Na verdade nada irradiava dela. Como se ela nem estivesse ali. A despeito de seus instintos o acalmarem, a cautela empurrou bem para o fundo de seu ser a ânsia de ajudar. Mas a menina continuou falando, e ele se deixou impressionar por ela, e essa foi sua perdição. – Eu não sabia… Eu não sabia que gente como o senhor existia. Como é que as pessoas deixam, como é que ninguém liga? Como é que as pessoas vão aos restaurantes, gastam nos shoppings, se divertem, e ao mesmo tempo não vêem que gente como você está aí? Que vive assim? Isso é cruel! Ele viu nos olhos dela, além das lágrimas, sentimentos sobrepostos uns aos outros. Choque, incompreensão, revolta. Sinceridade. Dor, profunda, um sofrimento que nunca deveria estar tão presente em rostos tão jovens. E ele, o miserável, o homem sujo e maltrapilho que havia perdido uma vida, que há anos estava mergulhado no pior dos pesadelos, pior porque não era pesadelo, mas realidade, e porque não havia despertar possível, ele, aquele ser que não era ninguém, sentiu piedade pela pobre menina rica. A revelação que ele via nos olhos dela, o horror com a descoberta do mundo, o desespero de entender que o sofrimento do qual alguns são poupados é o inferno de outros… Ele fechou os olhos, e sofreu por ela, e desejou – ele, que dormia em cima de um papelão e embaixo de um viaduto! – ampará-la, e protegê-la, e ajudá-la. Como que espelhando os pensamentos dele, a voz dela sussurrou, o murmúrio de um anjo. – Eu quero ajudar o senhor… eu não quero que o senhor sofra mais, nunca mais. O senhor pode confiar em mim… o senhor deve confiar em mim. Aquela voz. Ele abriu os olhos e pousou-os nos olhos dela. E se perdeu nos rodamoinhos que tinham a cor da água turva de um rio na enchente. Deixou-se levar, deixou-se arrastar. Olhando aquela face de anjo, escutando aquela voz de anjo, ele fez o que nunca havia feito, e o que não faria para mais ninguém. Baixou suas defesas. Assentiu. Permitiu. Ele se expôs por completo àquela figura pura e inocente que se oferecia para acabar com seu pesadelo. – O senhor quer que eu o ajude – não era uma pergunta. – Sim – confirmou ele, enlevado, seduzido. Dominado pela promessa de paz. – Então deixe que eu o alivie de seu fardo – murmurou a voz de anjo, perto de sua orelha – Deixe que seja eu a carregar o que lhe traz tanta dor. Deixe que seja eu a herdeira de sua missão. Sim, sim, aquilo parecia certo, depois de tanto tempo ter alguém a tomar seu lugar. Era justo, era sua salvação, o fim de seu martírio. Outro carregaria o peso que por anos, décadas, curvara suas costas. Ele descansaria. No entanto… aquilo não era certo, jamais existira a esperança de alívio, ele sempre aceitara que tal possibilidade não existia, não havia forma de… – O senhor merece descansar. Fui mandada para livrá-lo de sua obrigação, para que terminasse seus dias em paz. Por favor, acredite em mim. Eu vim para salvá-lo deste pesadelo, e vou terminar com seu sofrimento. Dê-me aquilo que guarda. A voz de um anjo. Um anjo havia sido enviado para salvá-lo. Como podia ter duvidado? As lágrimas escorriam por seu rosto enquanto com as duas mãos ele afastou as roupas sujas e rotas, expondo o peito magro. A pele, a carne e o sangue se afastaram enquanto ele enfiava a mão dentro de seu próprio corpo. A mão penetrou incrivelmente fundo. Teria de ter saído do outro lado, ou ter destroçado todas as vísceras, mas não havia dor em seu rosto. A mão penetrava sua alma, não seu corpo, vasculhava outra dimensão, e finalmente emergiu do buraco negro que se abrira no peito do homem, e que se fechou sem deixar traço. A mão segurava uma taça do mais rubro cristal, uma das peças mais delicadas e belas que os olhos humanos e não humanos já viram. A mão trêmula do homem estendeu a taça, que a mão firme da menina segurou. Os dedos dele se afastaram, deslizando pela superfície lisa do cristal até que suas pontas tocavam apenas o ar. Já não era mais seu guardião. Assim que tirou do homem maltrapilho aquilo que tinha vindo buscar, Lucila libertou-o do transe de sua voz, de seus olhos. Num instante horrorizado ele a olhou e compreendeu que havia sido enganado. Um tolo, um tolo completo ao não reconhecer naquela criança seu inimigo mais temido. Foi arrasado pela monstruosidade do que havia feito, pela enormidade de seu erro. O pânico, terrível pânico, assaltou-o numa onda que o afogou. – Não! – gritou. – Eu prometi terminar com seu sofrimento, velho. Eu sempre cumpro minhas promessas. De um puxão ela o ergueu do ninho de ratos em que ele estivera passando suas noites. Enfiou-lhe as presas na base da garganta, estraçalhando jugulares e carótida, e a mistura de sangue arterial e venoso que inundou sua boca e desceu pela garganta acalmou a sede que o jogo de dominação aguçara. Quando o corpo inerte, à beira da morte, já não tinha mais o que ser aproveitado, ela partiu o pescoço do homem com uma só mão, num gesto fácil e cheio de prática. Ela olhou o cadáver, caído na calçada numa pose patética que a morte tornava obscena. – Aproveite sua paz, velho. – Lucila! – a voz de Basquiat chegou até ela do alto do prédio de onde o demônio assistira a tudo, manipulando a percepção do velho de forma a esconder a real natureza da vampira. Com uma mão ela ergueu a taça de cristal, num gesto vitorioso. Com a outra lançou-lhe um beijo. – Té mais, diabinho lindo! – LUCILA! – gritou novamente o demônio. Mas ela já tinha sumido na noite.
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Ela o viu quase no mesmo instante em que ele a viu. Ele desceu as escadas e atravessou o salão lotado e agitado do Covil, vindo em direção à mesa dela. Enquanto levava aos lábios uma taça, não a taça, apenas uma taça, ela sorriu. Ele ficava lindo naquele corpo, e zangado daquele jeito. – Que palhaçada é essa, Lucila? – Senta aí e experimenta isto. – Cadê a taça, Lucila? – Tem uma bem na sua frente, gato. – Eu não estou a fim de brincadeiras. – E nem eu, Basquiat. É por isso que é melhor você se acalmar, se sentar e agir como se fosse um ser civilizado pra que a gente possa conversar como se deve. Ele se sentou. – Hum, isto é bom, gata. Um pouco de vinho demais pro meu gosto, mas é bom. – Brunello de Montalcino. É bem caro. E se tem alguma importância pra você, o sangue é "AB" positivo. Origem controlada e garantida. – Tá, agora que você já agradou meu paladar, agrade meus ouvidos. Cadê? – Não sei. – Por todos os fogos do inferno, se você não parar com as gracinhas… – Não é gracinha, eu não sei. – Não acredito que você tenha perdido a taça. – Claro que não perdi, Basquiat, tá me chamando de incompetente? – Lu-ci-la… – Eu pedi para outra pessoa esconder. – Eu vou matar você de novo, devagarinho. Com água fervente, cozinhando a sua carne até que esteja no ponto, e então vou trocar a água quente por água benta. Gota por gota, escorrendo por sua pele e queimando, dissolvendo-a numa massa amorfa, mas sem pressa, para que eu possa ouvir os seus gritos, ouvir você pedir por piedade, sem permitir que a morte definitiva chegue para libertá-la, mantendo o jogo por noites e noites, até que você esteja desesperada de fome, não apenas de dor. E então talvez eu pense em matá-la. Deixar aquilo na mão de outra pessoa! Você não é incompetente, é totalmente insana! – Terminou? – Sim. – Ele é de total confiança. Eu confiaria minha não-vida a ele, e pra dizer a verdade eu já fiz isso várias vezes. Além disso, ele não sabe o valor daquilo, o que aliás me faz lembrar que foi exatamente por isso que eu sumi com o bagulho. – Hã? – É isso aí, meu querido demônio. Eu sei que você já entendeu. Se você quer que eu devolva o bagulho, pode ir tratando de me contar tudo o que não me contou. Que diabos é aquela taça, pra que serve e por que é que você está tão desesperado pra pôr as mãos nela. Ele a olhou com atenção. Qual o motivo daquela exigência? Curiosidade, apenas, ou cobiça? Não que fizesse diferença, pois ela já havia feito sua escolha. A escolha errada, a escolha de um ser acostumado à vida eterna, para quem os momentos não importavam. Ele já vencera seu joguinho, embora ela não soubesse, e nem soubesse que havia um jogo em andamento. O real motivo pelo qual ele a procurara, ela ingenuamente descartara. Ela o agradara duzentos e vinte anos atrás, por que não agora de novo? E então ela propusera um jogo, sem saber, e ele rapidamente criara as regras. Afinal de contas, todo demônio joga alguns jogos menores enquanto trama o principal. Examinando a face dela, ele não precisava ler sua mente para saber seus pensamentos. Ela o imaginava em dúvida, confio ou não nessa vampira? Ingênua criatura, que não o conhecia realmente. Para ela, ele era apenas um demônio a mais. Não o general demônio que de fato era, um ser antigo como os tempos, tão poderoso que podia se dar ao luxo de arriscar-se em jogos perigosos, por mero tédio. De novo ele tinha vencido. Os jogos não eram tão perigosos assim, afinal. E agora? A decisão dela abria possibilidades. O jogo poderia prolongar-se. Ele estava curioso em saber o que ela pretendia. Ele poderia prendê-la, torturá-la e conseguir dela o nome de quem tinha a taça, embora isso já não importasse. Ele não tinha dúvidas de que poderia forçá-la a falar. Ela tinha quase quatrocentos anos de idade, mas perto dele era tão inocente quanto um peixinho dourado. Ele conhecia modos de fazer um vampiro falar que ela jamais imaginaria. Mas havia os contras: a tortura tomaria tempo, e lhe faltava a paciência para isso, no momento. E, sujar-se? Ah, não estava a fim. E seria uma pena fazer isso com ela, porque no final não sobraria muito daquele corpinho e daquela face que faziam o corpo dele se contrair em vários lugares. Seria um desperdício. Ele poderia fazer coisas melhores com ela. Por outro lado, ele poderia simplesmente dizer tudo bem, oká, fique com a taça. Divirta-se. Talvez até valesse a pena, só para ver a cara de tacho que ela ia fazer. Hum, parecia divertido. Tentador. Deveria fazer isso. Estava a ponto de fazer isso. Mas não, o mais divertido seria contar-lhe o que ela tinha perdido. O poder que jogara fora por sua pequenina deslealdade. Deslealdade gratuita, porque pelo que ele conhecia de Blanche, não era atrás de poder que ela estava. O que a movia era o mesmo que o movia: diversão. Jogos dentro de jogos. Ah, sim, ela merecia saber a verdade! Além do mais, sempre havia o prazer da dúvida. Ele tinha três revelações a fazer-lhe. Que faria ela depois? Qual a reação? Seria novamente desleal? Possibilidades, aquilo abria possibilidades! Algo deve ter mudado na cara dele. – Então, meu belo demônio, chegou à conclusão de que vale mais a pena arriscar me contando do que me despedaçar em alguma tortura terrível da qual nunca ouvi falar? – Continua folgando comigo e eu mudo de idéia quanto ao desperdício que seria te destruir numa sala de torturas. Ela ergueu a taça de sangue e vinho numa saudação, e levou-a aos lábios, sem dizer nada. – Só isso? – ele ergueu uma sobrancelha. – Tá, eu juro, pela minha não-vida que eu não vou interferir em qualquer plano que você possa ter. Bom o suficiente. Previsível o suficiente. Ele conteve a vontade de rir. – Não vou contar aqui. Público demais. – Minha cama ou a sua? – A sua é maior. – Ótimo. Eu confio mais nas minhas cortinas, no caso de amanhecer. Além disso, se eu tiver de te matar, minha cara, não terei de limpar a sujeira depois. Pensou ele. Pensou, mas não disse.
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Eles não passaram às explicações imediatamente, o que o agradou muito e fez com que ficasse muito satisfeito com a decisão que tomara. Ele detestava pessoas ansiosas, e ela estava longe de ser ansiosa. Era a vantagem de vampiros, especialmente vampiros como Blanche. Tinham uma outra perspectiva da vida. Ou não-vida. Mas tem uma hora em que até mesmo a vampira mais paciente chega a seu limite. – Você não tinha prometido uma explicação, Basquiat? – perguntou ela quando, mais uma vez extenuados, ele apenas a beijou, e se acomodou melhor, sem dar sinais de que iria dizer algo. – Tinha. Estava esperando que você pedisse, anjo de olhos perdidos. Mas não sei se tenho algo a contar que você já não saiba… – Chega de me enrolar, Basquiat. Você veio aqui pra abrir o jogo ou não? – Sim, Blanche, só que pra ser sincero eu não preciso dessa taça. Nunca precisei, meu amor. A idéia de consegui-la foi toda sua. – Minha? Mas eu não… – Você é que chegou sozinha à conclusão de que eu queria algo que só pudesse ser alcançado por um vampiro. Você sabe que há muitos artefatos mágicos escondidos por aí, pelos motivos mais diversos. Dentro das especificações que você criou, a taça era o que estava mais à mão, só isso… – O que você está querendo dizer, ser infernal? – Segunda revelação: não era na sua missão que eu estava interessado, era em saber se você cumpriria o trato ou não. Se poderia confiar em você ou não. Na verdade eu já imaginava o que ia acontecer. Foi uma aposta, mas uma aposta de baixo risco. – Baixo risco? – Foi uma aposta comigo mesmo. Se você tivesse me feito o favor, sem exigir nada em troca, eu ficaria a lhe dever outro. Igual ou maior. Seria seu servo até que você me liberasse. Esse foi o risco que corri. Ele precisava existir para a aposta ter graça, não? – Você estava jogando comigo o tempo todo. – Estava, meu anjo da morte. – Por quê? – Tédio. Porque eu estava a fim. – Por que eu? Por que você me procurou? – Por isto. Eles ficaram ocupados por um bom tempo. Depois Lucila ficou pensativa. – Meu servo… hum… – Você perdeu a chance, minha cara. Pediu algo em troca do favor que fez, não o cumpriu imediatamente. Bem, foi divertido. Agora você tem um artefato novo. Ainda quer saber o que ele faz? – E você acha que não? – Oká. Terceira revelação. Essa taça em especial foi criada por um demônio menor, como um presente a um vampiro. – Um demônio dando presentes? – Ah, acontece de vez em quando. Quando um de nós precisa pagar por algo ou quando quer algo. Bem, nesse caso em especial, o vampiro era um desses chatos que se lamentam o tempo todo por serem vampiros e serem diferentes da humanidade, e pediu ao demônio, quando ele lhe ofereceu qualquer desejo que quisesse, um artefato que o tornasse novamente igual aos outros. E foi o que o demônio lhe deu. – Uma taça que transforma vampiros em humanos? – Ná. Na verdade se um vampiro beber sangue naquela taça a cidade inteira se transforma em vampiros. Exatamente o que o outro tinha pedido. Um artefato para deixá-lo igual a todo mundo. Ele é seu, agora. Pode fazer com ele o que quiser. Revelados todos os segredos, ele examinou atentamente a expressão dela, enquanto ela parecia perdida em pensamentos. Ele ainda não estava certo quanto à reação que ela teria. Ele não estava muito disposto a ter quinze milhões de vampiros subitamente em suas mãos, e se ela quisesse usar a taça ele teria que tomar algumas atitudes mais drásticas. – Bonita história. Mas perderia completamente a graça. São Paulo inteira repleta de vampiros lamuriantes? Credo, parece cena de pesadelo! Ela se esticou para alcançar o telefone na mesa de cabeceira e ele, aliviado, pode apreciar em paz as formas dela. – Oi, sou eu. Você pode me trazer aquela caix… – ela ficou quieta um instante, em sua face uma expressão de espanto foi rapidamente substituída por uma de e agora?, e ela olhou rápida o relógio de pulso – Claro que eu sei que horas são, são cinco e quinze da manhã. Eu não teria ligado a esta hora se não fosse urgente. Dá pra ser ou tá difícil?… Nem pensar, lindinho, daqui a pouco amanhece. Você vai ter que trazer… É, eu sei que sou insuportável, mas eu já disse, é uma emergência… Eu sabia que podia confiar em você. Você é um doce. Ela recolocou o telefone no gancho, meio pensativa. – Um mortal?! Você confiou a taça a um mortal? Você é maluca! – Ele é de confiança – ainda meio em órbita. – E se ele tocasse a taça? Sabe lá o que poderia acontecer?? – Eu falei pra ele não abrir a caixa nem que a vida dele dependesse disso. E que, aliás, ela dependia de que ele não abrisse. – Algum problema? – Não, nenhum – ela respondeu, distraída. – É, eu sei, é duro a gente se apaixonar por um mortal… – Quem aqui está apaixonado por um mortal? Só se for você. Ele apenas sorriu, observando que a cara dela tinha ficado vermelha. Com o sangue dele. – É melhor eu me vestir, daqui a pouco ele chega. Ei… onde você vai? – Me vestir também, ué. Ou você quer que eu apareça assim na sua sala? Seu… amigo não ia gostar. Ela não discutiu. Ela não disse eu preferia que você ficasse aqui longe das vistas dele. Ela sabia que tem certas coisas que a gente simplesmente não pode pedir a um demônio. Quando a campainha tocou, Lucila abriu a porta e recebeu sem beijos ou abraços o homem loiro, atraente embora quase calvo e beirando os quarenta. Ele tinha uma caixa nas mãos e, olhando para dentro da sala, respondeu com um aceno de cabeça ao tchauzinho que Basquiat lhe deu. Homem de poucas palavras, ou puto da vida, pensou Basquiat. O homem foi embora quase no mesmo instante, igualmente sem beijos nem abraços, e sem olhar de novo na direção do demônio, deixando a caixa com a vampira. Basquiat sorriu: – Pensei que você tivesse dito que era exigente com seus loiros. – E sou. – Como eu já disse, é duro… – Repete e eu te exorcizo, demoniozinho abusado. Só pode ser paixão não correspondida, pensou ele, sorrindo para si mesmo, enquanto a observava tirando a taça da caixa. – Oká, não seja por isso. Ah, bem, mas eu ainda estava querendo me associar com uma bela vampira… – Hã? – É, eu andei pensando, bem que você podia me passar o telefone daquela tua amiga que estava lá no bar, naquela noite. Jeitosa ela, e tem uma bunda… – Seu filho da puta! – ela atirou a taça na cabeça dele, furiosa, enquanto ele se desviava, rindo, e deixava que o cristal delicado se estilhaçasse na parede. Um artefato poderoso, protegido contra quase tudo. Menos contra vampiros. Triste o fim que encontrou, uma chuva de estilhaços escarlates que se derramaram pelo tapete. Ele ainda estava rindo quando se jogou sobre ela, e juntos caíram no sofá. Agora riam os dois. – Meu servo, é? – É. – Para você me dar por obrigação o que agora eu tenho por livre vontade? Nem pensar, demônio. E enterrou-lhe os dentes no pescoço. Agora era a vez dela. – Eu sabia que você ia dizer isso! Hummmm!
Martha Argel Mariana Albuquerque
A Mariana Albuquerque é uma das escritoras mais imaginativas que conheço. O primeiro contato que tive com ela foi lendo seu livro Coração de demônio (Writers, 2000), e foi então que me apaixonei por seu demônio Belial, também conhecido como Basquiat. A idéia de juntar Basquiat e Lucila me perseguiu durante várias semanas, até que tomei coragem de perguntar à Mariana o que achava da idéia. Para minha felicidade, ela topou. Nós nos divertimos muito escrevendo esse conto a quatro mãos, em março de 2001. E acho que a Lucila e o Basquiat se divertiram ainda mais... |