No vácuo escuro da madrugada, sempre tem um idiota fazendo merda ao volante. Quando ela deu por si, a BMW preta vinha de encontro a seu Golzinho. Reflexos rápidos quase foram suficientes, e evitaram um estrago maior, mas mesmo assim, entre guinchos de pneus freando e a sinfonia arrepiante de vidros se estilhaçando e metais sendo torcidos, lá se foram o pára-choque e toda a parte fronteira direita do veículo.

Ela estava fora do Gol e junto à porta do outro motorista antes que ele piscasse os olhos. Furiosa.

– Você tirou carta pelo telefone, hein, sua cretina?

– Como é que é? – ela foi pega de surpresa. Puta que o pariu, o sujeito entrava sem olhar na avenida e ainda vinha gritando pra cima dela?

– Não aprendeu a dirigir, não, ô princesinha? Por acaso o papai comprou a avenida e te deu de presente?

Ela o examinou com atenção. Idade do lobo, unhas manicuradas. Marca de uma aliança ausente no bronzeado da mão esquerda. Uma fragrância de uísque bom e perfume caro envolvendo-o como um manto de nobreza. Uma daquelas barrigas protuberantes que costumam vicejar detrás de uma escrivaninha cheia de papéis importantes, telefones ocupados e contratos vantajosos. Na forma como a olhava, a certeza indisfarçável da supremacia masculina sobre a incompetência feminina.

Ela sentiu uma vontade irrefreável de provocá-lo.

– Foi você que fez cagada, tio. A culpa foi toda tua.

– Tio? Tio? Como se atreve, sua fedelhinha de merda? – uma veia apetitosa saltou no pescoço dele, e a ira tingiu de rubro sua face.

A porta do carro se abriu com violência, e teria batido nela se ela não tivesse pressentido o movimento e recuado. O homem saiu, truculento.

Ela deu mais um passo para trás, fingindo um receio que estava longe de sentir.

– Vou chamar a polícia pra fazer o B.O. – ela avisou, sacando o celular. Um blefe, uma provocação. Da polícia ela só queria distância.

– Nada de B.O., bonequinha – disse o sujeito, arrancando-lhe o aparelho das mãos.

– Devolve o celular! – protestou ela, irritada.

Ele tirou a bateria, que guardou no bolso, e jogou-lhe o telefone de volta. Ela o pegou no ar.

– Agora você vai entrar nessa merda de carrinho e vai dar o fora daqui, boneca. E dê-se por feliz por eu não ir atrás do teu pai pra ele pagar o estrago no meu carro.

– Você é maluco? Tá chapado? Foi você quem fez merda, entrando na avenida sem olhar e batendo no meu carro. É você quem tem que pagar!

– Nem fudendo, princesinha. Imagina que eu vou pagar pra uma ninfetinha sonsa que nem você. E quero ver alguém acreditar que a culpa foi minha. Vai, pega teu rumo antes que eu te dê uma surra. Sobe no carro e se manda.

– Ah, mas não mesmo, seu porco!

Ele ia reagir, mas não teve tempo. Ela o agarrou pela camisa de linho, e trouxe-o para junto de si. Seus dentes perfuraram a carne e foram se cravar na carótida pulsante e saliente, e o sangue quente lhe inundou a boca. Ele soltou um rugido de surpresa e dor.

Silêncio! – comandou ela.

Ele, claro, fez silêncio, incapaz de resistir à Voz vampírica.

Ela bebeu, não para matar, só o suficiente para aplacar a irritação contra aquele mortal arrogante. Já mais calma, interrompeu o beijo sangrento.

Me dá o dinheiro da carteira.

Ele deu, duzentos e trinta reais.

– Com isso não conserto nem os faróis. Me dá um cheque em branco assinado. Pensando melhor...– ela se lembrou de um belo e caríssimo broche que vira na Swarovski – ... me dá dois.

Sem discutir, ele tirou o talão do bolso, apoiou no capô do carro, assinou duas folhas e entregou para ela.

Devolve a bateria do celular.

Ele devolveu.

Antes de ir embora ela o puxou de novo. Não o mordeu. Apenas usou a Voz.

   

~ o ~ o ~ o ~ o ~

 

Pânico. Era o que ele sentia agora, cada vez que se sentava ao volante. Cada carro, cada moto, cada caminhão era agora um inimigo a atacá-lo. Sair de casa tornou-se um suplício. Atravessar um semáforo, um pesadelo.

A provação foi, porém, breve. Não mais que quatro dias de pavor, e uma freada brusca do carro de trás fez seu coração aterrorizado parar de bater, de repente e para sempre.

Como ela havia determinado que fosse.

Nada de mais. Apenas um evento irrelevante. Um idiota a menos no mundo.

Mas os cheques dele até que foram úteis...

 

 

Martha Argel

para Giulia Moon

 


Em julho de 2002, criei uma série de contos curtos chamados ''A Vampira Ataca!", originalmente destinados a aparecerem em meu meu blog, Uma vampira em Sampa (http://vampirapaulistana.blogspot.com). Este aqui é um deles (na verdade, o de número 3), mas por ter ficado um pouco longo, acabei não colocando no ar. Quem me deu a idéia foi a Giulia Moon, ao contar uma dessas inevitáveis histórias de idiotas ao volante que todo paulistano tem para contar.


Voltar