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Mais
cedo ou mais tarde, até um vampiro que evita o contato com seus
semelhantes fica sabendo das novidades. – Sério que nunca tinha ouvido falar? – disse o vampiro entre um gole e outro. Cachaça com sangue. Vaipirinha. Humor dos vampiros desta terra fascinante. – Não – respondeu Lucila. Um mortal que se fazia chamar de vampiro. Não que tentasse enganar alguém, não. Seu apetite era por sexo. Seu sonho comer todas as mulheres que via. Apenas um tarado, vaidoso e orgulhoso de si e de seus discutíveis atributos. Mais um, como tantos outros, as ações decididas unicamente pelo impulso animal do desejo. – Não é vampiro, mas é um perigo – continuou ele – Isso não é bom, mesmo sendo brincadeira, basta alguém que acredite e logo haverá uma legião de caçadores a perseguir-nos. Mesma opinião de Lucila. – Uma providência é necessária. O sujeito precisa desaparecer – concluiu o vampiro depois de outro gole mais. Uma idéia brotou na cabeça da vampira. Ela sorriu. – Se quiser, posso cuidar disso. O vampiro aquiesceu, erguendo o copo numa saudação. Lucila o imitou com o seu próprio copo, e então tomou o resto da bebida tão interessante. Mal podia esperar. Ela antevia diversão. Quatrocentos quilômetros ao sul. Com
algum planejamento prévio, nada é impossível para um vampiro. ... e portanto lá estava ela, poucas noites depois, naquela cidade bonita. À caça do assim chamado Vampiro de Curitiba. Frio do inverno. Garoa do começo de noite. Ela se espreguiçou na cama, os braços de seu humano, seu brinquedo, quentes e lânguidos a rodeá-la. Sexo e sangue enquanto o sol se punha. Bom brinquedo, olhos verdes, sexo bom, sangue denso. Estava durando, esse. Deixá-lo para trás, lá na cidade onde ela escolhera morar? Nem pensar. Ele tinha seus usos e sua utilidade. Sexo, sangue, diversão e... informação. – Sei onde ele vai estar nesta noite – os olhos verdes sumiram de vista quando ele grudou a boca na dela. Beijo bom, e depois mais sangue rubro, para aquecer o corpo esguio que ele abraçava e comprimia contra o seu, e percorria com mãos famintas. Bom brinquedo. Um
vampiro pode se fazer passar por humano quando bem entender. Então era aquele o tal. O Vampiro de Curitiba. Um vampiro chamado Nelsinho? Constrangedor. Homenzinho franzino, bigodinho de dândi, terninho correto, cabelo engomado. Olhos incansáveis e febris, caçadores. Escrito na testa: tarado, movido a hormônios. Tem mulher que é atraída por esse tipinho, mulheres frustradas, limitadas, filhas de uma criação burra por tradição – filha minha casa virgem, é pudica e obedece o marido, puta frustrada no coração e presa garantida para o primeiro que prometa emoção. Como aquele ali. O Vampiro de Curitiba. Bigodinho cuidado, suando frio sob o olhar quente dela. Os pensamentos mais que evidentes no rosto que tentava disfarçar susto, desconforto, desejo. ''Ela não tira os olhos. Acompanhada, a fulaninha, o sujeitinho loiro é mais baixo que eu, mas pela cara bate forte. Me comendo com os olhos ela, ali na mesa do fundo, se ele nota... Doida safada, provocando assim, na frente do tipo.'' Predador de araque, tanto medo de presa tão fácil. Ou ela o subestimava, e ele pressentia o perigo. Sentada à mesa no fundo do bar, a mão quente e familiar de seu brinquedo, tão útil!, pousada no joelho, Lucila sentia aumentar aos poucos a excitação da caçada. Os olhos castanhos, quentes e grandes, fixos no predador trêmulo. Ela deixou a fome chegar até eles, e inundá-los. Ela viu quando ele engoliu em seco. Fácil saber o que ia pelo cérebro entorpecido. ''Olhos de areia movediça. Fixos, sólidos, mas prontos para engolir. A inocência na cara, então? Boquinha de primeiro beijo, pudor falso. Cabelo macio, pra passar a mão. Ai, que eu não resisto. Estou morto, mais um nada e esse tipo vem tomar satisfação.'' A mão do brinquedo ia e vinha no joelho, e ia cada vez mais. Coxa acima, em cada ida um milímetro mais acima. Era bom. Ele sabia brincar. O taradinho vendo tudo. O cérebro torturando. ''Ele sabe e não liga, o sujeitinho loiro. Tem tipo que é bem assim. Acha o máximo a mulher atentar, provocar, atiçar gula. O joelho dela, redondinho na mão, convidando os dedos, por dentro, por cima. Era capaz de cair duro depois. Cruza a perna, isso, o pezinho balançando no ar, ai, eu morro feliz.'' Seu humano a puxou para um beijo, a mão ainda no ponto extremo da ida, quase extremo mesmo assim por cima do panos da roupa. Beijo em público, até que recatado, mas Lucila sentia no lado do rosto o olhar quente e lúbrico de Nelsinho, aspirante a vampiro, arremedo bisonho de predador. ''Ai, Senhor, que ela molha antes o lábio com a ponta da língua. Língua de gata, arrepio só de pensar. Na minha orelha, hálito de vento no deserto. Ah, não, ele na orelha dela. A mão cada vez mais lá. Não é justo, Senhor, eu definhe assim, tão perto, e eu tão devoto.'' O
verdadeiro deleite do vampiro é a caçada. A perseguição. Acuar a
presa, encurralar, até que ela não tenha escolha senão entregar-se. Enquanto o brinquedo lhe beijava o pescoço, Lucila voltou a fixar os olhos no vampiro Nelsinho. Olhos de predador verdadeiro, viam implacáveis a gotinha de suor entre os pêlos do bigodinho. A artéria pequenina latejando na têmpora. A mão convulsa que apertava o copo de cerveja, brancos os nós dos dedos. A outra mão no bolso da calça não enganava. O vai-e-vem denunciava. Se inspirasse com cuidado, o cheiro dele chegava até ela, inconfundível. Macho no ponto, pronto. Um pequeno sorriso se formou em seus lábios de menina, mas de infantil não tinha nada. Senhora da situação, sua a presa, para ser tomada. Passou a mão pelo rosto do brinquedo, encostou-lhe os lábios na orelha, a língua úmida. Mordiscou a pontinha e ele se arrepiou. Não disfarçou ter visto o outro respirar fundo. Disse algo, beijo entre o olho e a sobrancelha, um afago de consolação e se levantou. Ajeitou a saia, alisou com a mão. O bigodinho de Nelsinho tremeu. ''Deixa que ajeito, aliso, abaixo ou levanto, será rosa a cor da calcinha? Coxas durinhas e brancas, ir encostando de mansinho. É das que ficam olhando, aposto. Cara de virgenzinha, mas na hora não fecha o olho, encara firme, a cadelinha. Se eu morder a nuca dela, então? Ai, Senhor, e a criatura vem. Deixou para trás o corno.'' Ela veio vindo, a caminho da porta de saída. Ele de olho fixo no braço gracioso, muito branco, a penugem clarinha, macia, pedindo dedos suaves de alto a baixo. Quando passou por ele, o quadril de mocinha roçou-lhe leve no ombro. O perfume fez cócega no cérebro dele, virou os miolos do avesso. Ela saiu pela porta. Ele levantou, e seguiu detrás. Passando na frente do espelho da entrada, ele vacilou nos passos, olhos presos na própria imagem. Contemplou-se com paixão, fabulosos cabelos, bigodinho invencível, sorriso melífluo entre faces rosadas de juventude persistente. Nelsinho, o bonitão. Conquistador inconquistável. Vampiro supremo de Curitiba. Lucila riu daquilo, detectando o caso grave de egolatria. Deixe estar, jacaré. Seguiu adiante, e por fim ele se apressou. Na mesa do fundo, o homem de olhos verdes serviu-se de mais vinho, imperturbável. Mais tarde a predadora voltaria saciada, plena, e os jogos seriam outros. Brincar
com a presa, divertir-se sem pressa, como gatos. Vampiros têm a
eternidade para seus jogos. – Tem certeza ele não vem? Aparecer de repente, e eu me lasco. – Pode descuidar, estamos sozinhos. Ele foi na direção dela. Os peitinhos de pera chamavam por debaixo da seda azul. – Não se aproxime. Confuso, ele parou. Obedeceu. Não queria, mas. – Quer me endoidecer? Ela riu. – Sim. – Pois conseguiu. Agora me deixa... – Deixa o quê? Fome nos olhos. – Tudo o que você quiser. – Um jogo.Você diz. Se eu gostar, tiro uma peça. Se não, você tira. Ele passou a língua pelos lábios secos de beijos. – Beijar tua boquinha de boneca. – Fraca essa. Tira o paletó. – Teus peitinhos durinhos na palma da minha mão. – Fora a gravata. – Morder sua nuca, três vezes. – Não suporto bigodinho espetando. As calças. – Mas os sapatos... – Tira também. Meias pretas, cuecas largas, as abas da camisa pendendo soltas. Pernas finas. Ela riu. – Magrelo. – É doida. Vou-me embora. Ela desabotoou a blusa e mostrou o sutiã que segurava, cioso, os seios delicados. – Correr os dedos por trás de seus joelhos – tentou ele, desesperado por apertar os biquinhos ávidos daqueles passarinhos. – Odeio cócegas. As cuecas. – Judiando de mim, por quê? – gemeu ele, mas obedeceu. Patético assim exposto. Ela foi até ele e deixou abraçá-la. Sôfrego, arquejante, a boca dele procurou a dela, língua tateante no céu da outra boca. A mão apertou a polpa de um seio, pêssego maduro, antes de escorregar pela saia rumo à barra. Já vinha de volta, por dentro, escalando a pele macia da coxa, e a língua atrevida esbarrou no inesperado. – Que dente comprido, minha queridAAAAHHHH... Ele tentou se afastar, e foi a face do pesadelo que encarou. Presas pontiagudas, olhos de selvageria feroz, semblante contraído num ricto voraz. Ele se debateu, mas dedos de aço prendiam-no, pelos braços finos, de encontro ao corpo não mais de bela, de fera. Uma cascata de cabelos lisos escorreu-lhe sobre o peito quando a cabeça baixou e as presas se fincaram na lateral de sua garganta. Terror de pardalzinho nas garras do gato. Imóvel, um grito congelado no rosto que era seu orgulho, e o torpor começou a se espalhar por mãos e pés, depois pernas e braços, enquanto o sangue era surrupiado. Perdeu os sentidos. Nem sempre os vampiros fazem o que a gente espera que façam. Eles fazem exatamente o que querem, quando querem. – Mas por que, minha doce criatura das trevas? – Por que o quê? Ela o olhou ao volante, seu brinquedo. Útil. Ela podia se dedicar à paisagem enquanto ele a conduzia, estrada vazia, de volta a casa. – Por que não o matou? Ela riu, uma risada cristalina, e afagou-lhe o rosto. Ela gostava de sentir o calor da carne mortal, viva. – Melhor que isso, meu delicioso Adriano, melhor que isso. Nem sempre a morte é o destino mais cruel, acredite. Não seria divertido, não o suficiente. Divertido é saber que ele ainda vai viver muito, mas que jamais voltará a ter prazer em suas caçadas. Sugestões vampíricas, você sabe como são, impossível não obedecer. – Mas o que exatamente você fez com ele, anjo negro? Ela o beijou na orelha. Ele se arrepiou e sorriu. – Cada vez que estiver a sós com uma mulher, seus olhos se abrirão para o indesejável e o sórdido. Por mais insignificantes, as pequeninas coisas desagradáveis ganharão importância. Verá o repugnante onde não existe. Obsessão. Nunca mais encontrar satisfação. É o triste fim, querido, do Vampiro de Curitiba. Ele engoliu em seco. Não era com ele, ainda bem. Aos poucos um sorriso ganhou seu rosto. Poderosa, ela. E era sua. Lucila também sorriu, olhando a noite. Bom jogo, tinha sido aquele, mas já estava terminado. E além disso, ela já começava a pensar num brinquedo novo... Jogos vampíricos são sempre cruéis.... ''Nelsinho despiu a cueca, apenas de camisa e sapato. Ela o encarou e, a mão atrás, abriu o sutiã: horrendo peito flácido.'' ... ''De pé, não deu resultado: a visão medonha das nádegas no espelho. Depois, sentados. E deitados retomaram os cigarros.'' ... ''Ele suspendeu-lhe o queixo. Escondia o rosto, até que o olhou e sorriu, amorosa. Com susto, descobriu que era banguela. Nem um dente entre os caninos superiores – terei de beber, ó Senhor, deste cálice?'' ... ''Para esconder a perturbação foi fechar a porta. Mal ele voltou, ela veio ao seu encontro, envolvendo-o em couro úmido e carne rançosa. Que será de mim, Deu do céu?'' ... ''Ela puxou-o pela camisa e, à sua mercê, voltou a cavalgá-lo, sela nova rangendo. Ao retirar o casaco, a desgraçada fedia que era uma carniça. Inclinou-se sobre ele, o cadáver no caixão velado pela última carpideira.'' ...
e são sempre muito eficientes!
São
Paulo, 21 de abril de 2002 Para Karen Formehl
De todos os vampiros brasileiros, o de Curitiba é o mais famoso, e nem vampiro é. Depois de ler o livro, passei vários meses imaginando qual seria a reação de Lucila se ela o conhecesse. Mas tudo começou, mesmo, com alguns comentários feitos por uma amiga virtual lá da terra das araucárias e dos pinhões. Por isso, o continho vai pra ela! |