Estação da Luz, começo da noite. Às vezes ela curtia aquela atmosfera deprimente, suja, decadente. Gente pobre, sofrida, feia. No meio, sempre alguém para saciar a Sede.

O trem para Francisco Morato saía daí a pouco.

- Dá o dinheiro!

- Dou não!

- Dá!

- Não, senhor.

- Você quer é a minha ruína.

- Não, senhor. Você é que quer ver tua família na desgraça.

- Dá esse dinheiro, Lurdes.

- Sai pra lá, Osmar, esse dinheiro a patroa deu pra pagar a prestação do terreno.

- Dá vinte.

- Och, você tá é besta. Pra beber tudo em cachaça.

- Dá esse dinheiro, Lurdes!

- Qué isso, Osmar! Larga esse pau! Você num vai bater em mim, não.

- Bato. Bato em você  e depois vou lá e bato nos teus filhos.

- Os filhos também são teus, Osmar, e se você relar a mão neles eu juro que te mato.

- Eu mato você primeiro, sua bruxa!

Ele ergueu o sarrafo. Ela fechou os olhos, levantou o braço diante do rosto, fraca proteção, e se preparou para a dor. Que não veio. Ela abriu os olhos.

- Ele tá bêbado - disse a mocinha de olhos castanhos, segurando no ar o braço que não chegara a descer. O sarrafo caíra no chão. O rosto do homem, retorcido, indicava dor. Um homão daqueles? Mas a menina magra e pequena só lhe envolvia o pulso com os dedos finos. Dor daonde?

- Ele sempre tá bêbado.

- Seu marido?

- Pai dos meninos.

- Eles gostam dele?

- Não, neles ele só bate.

- E você?

- Gosto não. Já gostei, sei lá onde estava com a cabeça.

- Ele vai fazer falta?

- Só pro dono do bar.

- Vai embora. Desse aqui você não apanha nunca mais.

- Mas o que...

- Se você quiser eu solto. Senão, nunca mais vai ver ele.

- Lurdes, pelo amor de Deus, essa menina é maluca!

- Decide, Lurdes.

A mulher pensou um pouco.

- Adeus, Osmar. Obrigada, moça.

Virou as costas e entrou no trem.

- Lurdes! - ele ainda implorou. Ela não se virou. O trem saiu.

A vampira puxou o homem bêbado para um canto escuro. Virou-lhe o pescoço com violência. Um estalo. Ele estava morto.

Ela se afastou sem tomar-lhe o sangue. Cachaça demais estragava o gosto. Comida de sobra por aí, aquele sangue não faria falta.

O homem também não. Pra ninguém.

 

 

 

Martha Argel

Para alguém que é especial

 


Este é mais um conto da série ''A Vampira Ataca!", e originalmente  apareceu em meu blog, Uma vampira em Sampa (http://vampirapaulistana.blogspot.com). É o número 2, e como os outros foi inspirado em fatos ocorridos com pessoas muito próximas a mim.


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