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Maya
seguia o trio de mortais pela avenida. Eles não desconfiavam que havia
uma sombra a mais no concreto dos prédios, movendo-se silenciosamente sob
a luz do luar. Era um casal com filhote. Gente simples mas resistente,
exemplos da fauna da região. Sangue forte, muito bom nessa época de
frio. Maya não caçava. Apenas observava os paulistas e a sua metrópole,
tão grande e maltratada. Uma Nova York mais triste, mais pobre, mais
selvagem. Distanciou-se dos três humanos, tão longe que mal podia
distingui-los em meio à multidão. Os
olhos de Maya estavam atentos. Mas quase não percebeu quando uma outra
sombra deslizou pelo beco e selou a sorte da família humana. Uma mão
agarrou o pai, puxando-o para a escuridão. E, antes que chegasse próximo
o suficiente para distinguir o predador, Maya viu a mãe desaparecer da
mesma forma: sem um ruído, sem um grito. O garoto olhava, paralisado de
medo, para um ponto escuro no beco. Um rosnar profundo seguido de um
suspiro desesperado selaram o dramático final. Um estalar de línguas e
de mordidas, o bater de dentes e o ruído de carnes rompidas sinalizavam
um predador saciando a sua fome. –
Fuja! – O garoto ouviu uma voz feminina soar, vinda de cima de sua cabeça.
–
Corra, depressa! – ouviu de novo. Ele
correu. Não tinha visto claramente, mas havia uma moça de cabelos negros
e lisos empoleirada na parede como um lagarto. E ela lhe ordenara que
corresse. Ele obedeceu, todos os seus instintos dizendo que acabara de
salvar a sua vida. –
Você não é bem-vinda aqui, estranha. O
vampiro adiantou-se, o rosto pálido sujo de sangue. Maya
olhou para ele e não prestou muita atenção no seu tamanho avantajado.
Era uma criança, talvez com menos de cinqüenta anos; não era páreo
para ela, embora ele pensasse que sim. Mas o novato havia dado cabo de
dois humanos adultos com uma rapidez surpreendente, sinal de que seu
mestre era de respeito. –
Ei, vampira, estou falando com você! É surda, é? Huuum.
O novinho insistia em afrontá-la. Talvez devesse dar-lhe uma lição. Uma
lição definitiva. Com um salto, desceu ao chão e encarou o vampiro, já
decidida a resolver rapidamente o problema. –
Espere, Maya. Parou.
Finalmente o mestre viera em socorro à sua cria. –
Controle seu filhote, Lucila. – avisou, mostrando os dentes de forma
ameaçadora. – Ou dê adeus a ele. A
garota de cabelos castanhos ajeitou o seu jeans
com um movimento gracioso e aproximou-se de Maya, sorrindo de maneira
encantadora. Quem a visse, jamais desconfiaria que a quase adolescente de
olhos vivazes, vestida com um moletom
rosa era uma vampira de trezentos e tantos anos de idade. –
Maya, querida, há quanto tempo!
–
Nada de beijos, querida... –
Hum, que frieza! Está me estranhando? –
Apenas mantendo suas presas longe do meu pescoço, querida... Lucila
arreganhou os dentes num sorriso irônico. Maya a olhou com indiferença.
O filhote, pressentindo o perigo, resolveu ficar afastado das duas
veteranas. O melhor a fazer era acabar o seu jantar discretamente. Nesse
confronto, ele sabia que não faria a mínima diferença. –
Afinal, Maya, o que faz por aqui? Seu território é mais ao norte... Bem
mais ao norte, se não me falha a memória... – Lucila sorriu do seu
jeito peculiar. – Nova York, certo? Por que não volta pra lá, fofura? –
Vim só passar alguns dias na cidade, coração. Just
vacations. –
Haha, vamos fingir que acredito... –
Tanto faz, chuchu, não ligo a mínima para o que você acredita. Não se
preocupe, vou ficar até o fim-de-semana. Depois, São Paulo é sua, again... –
Sampa é sempre minha, titia, esteja aqui ou não. E se quiser ser
bem-vinda, não se meta com minhas crias. Maya
riu. Titia! Vejam só... Lucila era muito mais velha do que ela. –
Diga para ele não se meter comigo. –
Claro, amiga... O Hans não é bom em relacionamentos, sabe? Muito
atirado, sabe como é. Mas pode deixar, eu aviso minha turminha pra deixá-la
em paz. Maya
sabia que ela não ia. Lucila era uma pequena cobra venenosa, na sua opinião.
Podia-se esperar tudo dela, menos sinceridade. Mas não queria confusão
agora. E
Lucila sabia que Maya não gostava dela. A vampira metida, que tinha um
mordomo e morava na 72th
Street em Nova York. Sempre ostentando riqueza e colocando em
perigo toda a espécie. Nunca fora um problema antes, mas tê-la aqui, no
seu quintal, era algo perigoso. Não podia fazer nada, por enquanto.
Esperaria. Sorriu o seu sorriso mais ingênuo e disse: –
Mas o que a fez interferir na minha caçada, Maya, meu amor? –
Duas presas por noite não são suficientes, Lucila,
dear? Eu geralmente não gosto de
matar gente inocente. A não ser que me irritem de alguma forma, claro.
Coisa não tão difícil, devo admitir... –
Hum, Maya, queridinha, acho que você está meio por fora da lei da selva
paulista, não está? Este aqui, o Cleverson, é assaltante de
caminhoneiros, com ficha quente na polícia. A garota é uma assassina
profissional. Emprega-se nas casas, geralmente de idosos, e os mata para
roubar dólares e jóias. –
Really?
Certo, devo crer que você é uma boa samaritana, Lucila, livrando a
cidade desse lixo. –
O cacete, titia, só quero me alimentar com segurança. Esses caras surgem
e somem com a mesma facilidade e ninguém fica fazendo perguntas
indiscretas quando aparecem mortos... Básico. –
Bem, mas não era preciso matar a criança. –
Mas que criança? O
impacto de um tiro à queima-roupa atirou Hans de encontro à parede. Era
– quem diria! – o garoto com o 38 do pai. Mas o menino não estava
sozinho. Tinha mais dois sujeitos grandalhões, armados com canivetes, atrás
de si. –
Esta criança? – disse Lucila,
irritada. –
Deixe-me ver... – Maya aproximou-se do garoto e o encarou. – É esta
mesma. –
Parada aí, perua. – disse o menino. – Ou estouro você! –
Não, não vai, seu mal-agradecido. A
voz era infalível. O garoto
abaixou a arma. Maya olhou para os lados, preocupada com o barulho do
tiro, mas viu Lucila tranqüila. Ninguém viria para averiguar o que
acontecera. São Paulo era mesmo um caso à parte. –
Qualé, Beto, amarelou, é? Os
demais rapazes se aproximaram. –
Ei, eu fico com a baixinha. – disse o moreno com uma cicatriz na face,
pegando o braço da Lucila. –
Você é quem sabe, Lucila. – disse Maya, dando de ombros. – Se quiser
o outro, pode pegar. –
Não, Maya, obrigada, mas pode ser este aqui, mesmo. –
O sarará é meu, então. –
Be my guest, Maya, dear. –
Sabe que você fala muito bem inglês, Lucila? –
Obrigada, queridinha... –
Eeeei! Qualé, peruas, estão de conversê por que? Não tamo brincando,
hein? Se vocês não fizerem o que a gente quer, nóis fura vocês! –
gritou o cicatriz. –
Ieee... E nóis quer sexo!!! – babou o outro. Os
marginais empurraram as duas vampiras para o fundo do beco. –
Você primeiro, Lucila. –
Por
favor, Maya, visitas primeiro... –
Suas vacas, já falei pra calarem o bico! O
da cicatriz desferiu um tapa no rosto da Lucila. Não devia ter feito
isso. Os olhos da pequena garota sorridente afinaram-se. O bandido deu um
passo para trás, aterrorizado. Tinha finalmente compreendido com quem
estava lidando. Era tarde. A mão da vampira o alcançou pela jugular.
Enterrou-se na carne e afundou a traquéia, sufocando-o. Com a força de
um aríete, ergueu o corpo regurgitante e atirou-o em linha reta, direto
ao muro pichado, espantando alguns gatos que observavam a cena. Em
seguida, a vampira segurou com ambas as mãos o corpo deformado pelas
fraturas. Deu um tapa no rosto já arroxeado do marginal. A força do
golpe arrancou alguns dentes. Outro tapa. Os lábios explodiram em sangue.
Depois outro e outro. A cicatriz ia sumindo sob a massa de carne esmagada.
Era como se estivesse amaciando um bife. Só parou, satisfeita, quando
nada mais da fisionomia vulgar do homenzinho havia restado. Apenas o bife
sangrento. O
outro, de cabelos quase amarelos, quis fugir. Mas a mulher esguia de braços
finos e brancos o segurou pelos cabelos. Os olhos arregalados do mestiço
encheram-se de lágrimas quando Maya arrancou o seu cabelo alourado com o
couro cabeludo ainda colado a ele. Depois, a vampira trouxe o corpo ensangüentado
para si e fincou os dentes no pescoço palpitante. Acabara de se lembrar
que estava com fome. Não houve um só grito de socorro. Apenas o corpo se
tornando flácido e mole. Até sobrar apenas um grande vazio exangue. –
Devo-lhe desculpas, Lucila. – disse Maya ao ver a rival aproximar-se. –
Ah, deixa pra lá, Maya. Até que foi divertido. –
Mas e o garotinho? Lá está ele, tremendo de medo, o pestinha. Se você
quiser matá-lo, vou entender. –
Não, vamos deixá-lo viver. Vou fazer com que esqueça de tudo. Só não
posso garantir que não vire um marginal. Se isso acontecer, quem sabe nos
cruzamos no futuro... Aí terei o seu sangue. –
Hum... Pensei que estivesse brava por ele ter atirado no seu filhote. –
Hans? Não liga, ele já vai se recuperar. Agora o que me preocupa é esse
lixo todo. Temos que nos livrar dos corpos. –
Bem, posso ajudar... –
Vai levar os corpos a algum terreno baldio na periferia? –
Oh,
please...
Nada de tocar nesses cadáveres. Tenho alguém que vai vir me pegar com um
carro. Ele pode dar um jeito nisso. –
Mmmm, sei. Um mordomo apetitoso? –
Não ouse, Lucila. –
Hahaha. –
... pois conheço também um apartamento no décimo-oitavo andar na
avenida Paulista, onde mora uma certa moça... –
Não ouse, Maya. As
duas vampiras caíram na gargalhada. –
Então tá, Maya. Vou indo nessa. –
Ok, Lucila, desculpe alguma coisa. Beijaram-se,
desta vez. –
Tchau, titia, cuidado com os becos e as crianças... Maya
sorriu. Talvez um dia ainda pudessem ser amigas. Talvez. Giulia Moon
Para
Martha Argel São Paulo, 13 de fevereiro de 2002
Giulia Moon é uma excelente escritora e amiga ainda melhor. Sua criação, a elegante e impulsiva vampira Maya, aparece em vários contos cuja leitura é sempre deliciosa. Especialmente quando entra em cena o fleumático mordomo Stephen. Até quando conseguirá Maya controlar-se e manter-se afastada das suculentas e latejantes artérias de Stephen? Leia mais contos da Giulia em sua página web, www.giuliamoon.com.br |