Todas as noites, na madrugada, vou até minha luneta e assisto a mais um episódio da série “quem ela vai matar hoje”.

Minha vizinha, sempre bem vestida, maravilhosa. Lucila, a vampira, trazendo-me uma surpresa macabra a cada noite.

Um homem diferente, petisco, como ela mesma diz, é agraciado todos os dias com um convite a seu luxuoso apartamento.

Ela sabe que eu a vigio. Ela acha que sou um voyeur e nunca se meteu comigo. Ela ri de mim, por observá-la.

Às vezes, entretendo-se com algum homem em seu apartamento, ela olha para mim como se me provocasse, e às vezes até me convida para participar das festas que ela dá.

Mas eu gosto mesmo é do Grand Finale, das carícias que troca com seus petiscos no final da festa.

Ela sempre dança e bebe muito antes de ir para a cama com eles.

Ela nunca é muito exigente quanto a seus acompanhantes. Às vezes o cara é muito feio e gordo, às vezes é só um rapaz tímido. Só uma vez ela brigou com um cara, por queimar os lençóis com o cigarro, mas acho que qualquer mulher faria isso…

Acho que está quase na hora do petisco ir para o churrasco noturno, pois ela já está dançando... e o cara está indo para a cama!

Ele acende a luz do quarto dela e ... Oh, não! Parece que ele está com uma estaca? E esconde-a debaixo da cama!! Tenho que avisá-la!

Corro para o telefone ao mesmo tempo em que o cara arranca o aparelho dela da tomada! Fico desesperado! Fiz sinais para ela olhar pra minha janela e nada.

Eu a vejo ir para a morte e não consigo fazer nada...

Saio de meu apartamento e corro pela rua, até o apartamento dela, onde fico batendo à porta até que me atenda.

Ela abre a porta, linda, e agora sinto também seu perfume… mulher encantadora!

Engasgo um pouco para contar sobre seu parceiro mas ela coloca o dedo na minha boca e, segurando minhas mãos, me leva para dentro do apartamento.

Tremo, e não é de frio pois seu apartamento é quente e aconchegante.

Insisto em avisá-la sobre o homem no quarto, mas ela só quer dançar.

Novamente peço que me ouça, e ela me beija, e ficamos ali aos beijos, como se meu mundo morresse e só o dela existisse.

Aos poucos, completamente atordoado por seus doces beijos, tento lembrar do motivo por que vim. Então eu lembro e corro para o quarto dela.

O homem está na cama, de braços abertos e com a sua própria estaca enfiada no peito!

 

Ela é esperta!

Ficamos ali a noite toda, aproveitando... 

 

 

Adriano Siqueira

 


O Adriano Siqueira é fã da Lucila, e escreveu este conto em homenagem a ela, em maio de 2001. Veja em meu conto A noite do voyeur a mesma história, sob outro ângulo.

Na verdade, hoje em dia a Lucila não agiria dessa forma tão leviana, nem que estivesse maluca. Ela me contou que essa cena se passou na já distante década de 60, quando  ela ainda não se preocupava muito em esconder da polícia seus rastos. Mas logo a coisa já começaria a mudar, como se nota em Uma vampira em Curitiba, que se passa poucas semanas depois desta historinha que você acabou de ler.

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