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Treze
microcontos
Martha Argel
Isabela ia cruzando a rua quando seus olhos encontraram aquele homem na calçada em frente. Encantada pela figura dele, nem notou a lotação que vinha a mil, e que a atropelou. Pedro seguiu em frente, sem saber que aquela que deveria ter sido o grande amor de sua vida acabava de morrer debaixo das rodas de uma kombi velha. ~ o0O0o ~ A menina jogou a bola colorida para cima. O mundo onde ela morava era tão pequeno que deu a volta inteira ao redor de si enquanto a bola subia e descia, e ela caiu de novo nas mãos da criança. ~ o0O0o ~ Alonzo parou num posto de beira de estrada para esticar as pernas. Lavando as mãos no banheiro, olhou-se ao espelho e não viu seu reflexo. Ele não sabia, mas tinha morrido num acidente trinta e dois quilômetros antes. ~ o0O0o ~ Eles trocaram o primeiro beijo de eternos enamorados. No meio do beijo ela descobriu que não o amava mais. Levantou-se, saiu da sala e eles nunca mais se viram. ~ o0O0o ~ Em sonho, Deus falou a Tadeu. – Pede, filho, o que quiseres. – Um pizza de brócolis com muito alho e um guaraná diet gelado. Deus nunca mais lhe apareceu. Mas também, a pizza estava fria e o guaraná, quente. ~ o0O0o ~ O Professor, PhD e coisa e tal, passou o dia em sua sala sem conseguir ler nada. No dia seguinte, cedinho, a faxineira percebeu a lâmpada queimada, e a trocou. ~ o0O0o ~ Edgar acordou no meio da noite e soube que havia uma barata em seu quarto. De medo, não conseguiu adormecer outra vez. Mas então caiu em si e pensou “bobagem, medo de um insetinho, eu?” E aí dormiu. Na mesma hora a barata veio, fez cocô em sua boca e roeu a sua orelha. ~ o0O0o ~ Há muito tempo, na velha China, um príncipe morava em um palácio tão grande que ele não o conhecia todo. Ao cumprir dezoito anos, comunicou a seu pai, o imperador, que tinha o desejo de percorrer todos os cômodos do palácio. O imperador se entristeceu, mas não se opôs. O príncipe despediu-se de seu pai e de sua mulher e partiu. Quando retornou à sala do trono, foi recebido com grande júbilo, e o imperador, seu neto, lhe contou que há mais de meio século ele havia sido dado como morto. ~ o0O0o ~ Juliana viu, pela janela, duas andorinhas no céu, e desejou voar. Fechou os olhos e voou para sempre. Quando abriu os olhos, e viu que ainda tinha o almoço por fazer, ela chorou. ~ o0O0o ~ À frente do carro de Miriam, a estrada mergulhava no nevoeiro. Ela acelerou e foi engolida pela bruma. Quando saiu do outro lado, séculos depois, voava alto. Tinha asas, o corpo coberto de plumas azuis, uma juba negra e leonina, e uma cauda de serpente. Ela havia conseguido. Estava de volta em casa. ~ o0O0o ~ O homem santo seguia devoto a trilha que atravessava a montanha. Ao dobrar uma curva deparou-se com um imenso dragão da cor do fogo, que lhe bloqueava o caminho. Sem vacilar ou diminuir o passo, o homem santo se pôs a escalar o paredão rochoso que margeava a trilha, na intenção de contornar o monstro colossal. – Pequeno homem, não tens medo de mim? – perguntou intrigado o dragão, com voz possante. – Não, pois minha fé em meu Criador me protege dos males do mundo – redargüiu o homem santo, sem interromper a escalada. – É mesmo? – disse o dragão, e esticou-se, e colheu o homem santo entre as mandíbulas, mastigando-o bem e engolindo-o todo de uma vez. – Carne magra, e fraca – reclamou o dragão. E arrotou. ~ o0O0o ~ Anabel queria dormir mais um pouco, e assim fez um feitiço para que o sol nascesse uma hora mais tarde. Mas Anabel ainda era aprendiz no ofício das bruxas, e o sol não nasceu na manhã seguinte, e nem nas outras. Anabel não despertou, e dorme até hoje, como dorme toda a humanidade. Cheguei a crer ser o único a estar desperto, mas está claro que não, já que você está lendo este relato. ~ o0O0o ~ Na escuridão da noite, Jonas acordou e ficou paralisado de terror com o monstro que o espreitava atrás da porta. Mas ele se lembrou de ter pendurado ali o capote, antes de dormir. Suspirou aliviado, e então o monstro saiu de detrás da porta, e o matou e comeu.
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